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Posso
usar anticoncepcional?
Posso
engravidar?
Devo
continuar tomando minhas medicações?
Devo
fazer cesárea?
Poderei
amamentar?
Posso ter
agravamento da doença no período da gestação e parto?
Conseguirei
cuidar do meu filho? Vê-lo crescer?
Quais os
riscos de meu filho também ter a doença?
Estes são questionamentos frequentes na cabeça de uma
mulher com esclerose múltipla.
Vamos conversar sobre vários aspectos deste amplo e tão
importante tema.
A mulher enfrenta várias nuances em seu corpo inerentes ao
gênero: variações hormonais, menstruação, gestação, parto, puerpério,
menopausa. Na mulher com esclerose múltipla esses podem ser fatores de
flutuação de seu quadro.
Menstruação
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Sintomas podem se agravar no período menstrual, confundindo, em
algumas situações, com surto.
Estudo com 149 mulheres demonstra que 70% agravaram 7 dias
antes do fluxo e 3 dias após, predominantemente: desequilíbrio, fraqueza,
depressão e fadiga. Acredita-se que isto se deva ao aumento da temperatura
corporal neste período.
Alguns medicamentos podem causar irregularidades no ciclo
menstrual: Mitoxantrone, Natalizumab, antidepressivos. Os interferons podem
ocasionar sangramento entre ciclos.
Contracepção
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A esclerose múltipla não afeta a fertilidade, por isto a contracepção deve ser realizada principalmente em uso de imunomoduladores e imunossupressores.
O melhor método é o que se adequa ao ritmo de vida da
mulher e do seu parceiro. Sempre discuta com o seu ginecologista.
Menopausa
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Com sua queda hormonal característica não parece
influenciar a esclerose múltipla, nem positiva, nem negativamente.
Algumas queixas sintomáticas podem se agravar
principalmente relacionadas ao controle urinário e fadiga, porém estas são
maiores na menopausa sem esclerose múltipla também.
Mais importante ainda nesta fase é cuidar da alimentação,
hidratação e atividade física.
Não há contraindicações para terapia hormonal (TRH), mas a necessidade, qual tipo utilizar, quando e por quanto tempo devem ser
discutidos com seu ginecologista.
Gestação
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Ocorre nesse momento uma mudança do sistema imune, o feto é
albergue de antígenos estranhos ao organismo. Não nos esqueçamos de que 50%
dele são genética paterna, estranha ao organismo materno. Em resposta a isso, a
gestação induz um desvio imune com o intuito de proteger o feto e ao mesmo
tempo altera a resposta autoimune, beneficiando a mulher na gestação.
O estudo PRIMS (The pregnancy in multiple sclerosis study),
o primeiro grande estudo prospectivo observacional multicêntrico, realizado com
12 centros europeus que procuraram avaliar a atividade inflamatória na
gravidez e no parto no curso clínico da esclerose múltpla, demonstrou declínio significativo de surtos durante a gravidez, em particular no terceiro
trimestre, seguido de agravamento nos três primeiros meses pós- parto, pois
nesta fase ocorre o rebote imunológico, ou seja, retorno ao padrão
pré-gestação.
Foram avaliadas 227 mulheres com esclerose múltipla que
apresentaram gravidez a termo e foram observadas por 1 ano pós-parto.
Verificou-se redução da atividade da doença mais marcada no terceirro trimestre
(70%), dramática redução das lesões ativas na gestação com ressurgimento no pós-parto.
A gravidez ideal é a planejada, costumo brincar que a três:
mulher, parceiro e seu médico. Brincadeiras a parte, um planejamento adequado minimiza
riscos, evita gravidez em vigência de medicamentos e seus possíveis riscos. Uma
pessoa livre de surtos e sem alterações novas em ressonância, por ao menos 1
ano, chance de gestação tranquila e sem surpresas.
É uma conduta de maior segurança se realizar ressonância
antes da decisão de engravidar, em especial em pessoas com história de alta
atividade da doença; se exame mostrar atividade inflamatória ou pior que exame
anterior é seguro postergar a concepção e repetir as ressonâncias após 6 meses.
E
se eu surtar na gestação e/ou puerpério?
- Pulsoterapia venosa com corticoide padrão – metilprednisona, de 3-5 dias.
- Imunoglobulina venosa – reduz incidência no pós-parto
- Plasmaférese – segura, alternativa para pulsoterapia, sem risco para o feto e segura na amamentação.
O
pré-natal é diferente?
Não difere da população que não apresenta a doença. A
gestação pode agravar sintomas intestinais e urinários. Deve-se monitorar com
maior cautela risco de infecção urinária.
O aumento de peso, que gira em torno de
12 kg, muda o centro de gravidade corpóreo, isto pode acarretar maiores dores
lombares, fadiga, instabilidade postural, desequilíbrio, maior dificuldade pra
caminhar. O maior peso sobre a bexiga, ocasionado pelo útero aumentado,
acarreta muitas vezes agravamento em quadros de incontinência urinária. Uma
outra situação que deve ser monitorada com maior frequência é o risco de
infecções urinárias que podem aumentar nesta fase e sem sintomatologia clínica,
nesta situação se faz necessário realização de exames de urina periódicos.
O intestino, devido as mudanças hormonais apresentam uma
mobilidade diminuída. Maior risco de constipação, devendo-se atentar a uma dieta rica em fibras, hidratação, atividade física moderada e com regularidade.
Há um risco maior de estase circulatória nas veias dos
membros inferiores, devido compressão das veias pelo ventre aumentado, isto
acarreta edema de membros inferiores, aumento de varicosidades. Uso de meias
elásticas, evitar tempos prolongados em pé ou sentada, repousos intermitentes no
decorrer do dia com os membros elevados e uma maior restrição de sal na dieta
auxiliam, além da manutenção de atividade física regular e moderada.
Um controle rigoroso do aumento de peso e seguimento de
dieta equilibrada auxiliam cuidados especiais em cadeirantes e em espasticidade.
E
o parto? Anestesia?
Indicação de cesárea é obstétrica. Taxa cesárea de 10-40% em
pacientes com espasticidade, fadiga e fraqueza neuromuscular perineal.
Estudo de 423 partos, sendo 321 mulheres com esclerose
múltipla com controle e as demais sem a doença, não encontrou diferença no peso de
nascimento da criança, da idade gestacional média, da duração do trabalho de
parto e do Apgar do quinto minuto.
Uma metanálise que avaliou 22 estudos publicados de
1983 a 2009, não encontrou maior visão de baixo peso, abortos, prematuridade,
malformações ou mortes neonatais. Outros estudos não observaram diferenças entre duração e via
de parto, taxa de complicações quanto à diabetes gestacional e pré-eclâmpsia.
Não há correlação entre via do parto, anestesia epidural e
surtos pós-partos.
Em síntese: parto normal pode ser realizado e cesárea só se
indica na vigência de necessidade obstétrica e casos especiais.
Posso
fazer ressonância?
Não há registros de malformações fetais relacionadas com a
realização de ressonância durante a gestação, mas não é recomendada, a não ser
que o exame possa modificar a conduta clínica.
Posso
amamentar?
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Sim, mas deve evitar uso de imunomoduladores durante a amamentação, pois não se sabe se há
passagem para o leite materno.
A amamentação está associada com baixo risco de surtos, no entanto se ocorrer atividade da doença ou surtos deve-se reintroduzir os imunomoduladores e
reve a continuidade da amamentação.
Qual
o risco de meu filho desenvolver a doença?
A esclerose múltipla não é considerada uma patologia
hereditária, com a visão Mendeliana de transmissibilidade, ou seja, de mãe para
filho, avó para neto.
A causalidade exata da doença ainda é desconhecida. Hoje se
crê em um imbricamento multifatorial, no qual susceptibilidade genética e fatores
ambientais têm papéis a desempenhar no desenvolvimento da doença.
O risco do filho ter esclerose múltipla quando um dos
progenitores é acometido pela patologia é de 4%, se os dois 30%. Na população geral 0,2%.
O
que faço com a medicação? Devo manter? Suspender?
Assunto polêmico e de difícil resposta visto a delicadeza
ética que o envolve.
Não há estudos que se realizem em gestantes com o intuito
de analisar riscos na gestação. Os dados conhecidos são de acidente, ou seja,
mulheres que engravidaram inadvertidamente (sem planejamento) e experimentação
em animais.
O FDA classifica os riscos das drogas e gestação, em classe
alfabética. abaixo tabela explicativa:
|
FDA – Categorias na gestação
|
|
A – Estudos controlados não demonstram risco
no primeiro trimestre
|
|
B – Estudo animal de risco/ ser humano
desconhecido
|
|
C – Risco animal/ usar com cautela,
benefícios podem superar riscos
|
|
D – evidência de risco fetal/ situações
especiais benefícios podem superar riscos
|
|
X – riscos superam benefícios
|
Tabela com característica dos imunomoduladores aprovados e
em via de aprovação e sua correlação com fertilidade e risco de malformações
fetais e amamentação:
|
Medicação
|
Classe
|
Presença no leite
|
Amamentação
|
Fertilidade
|
Teratogenicidade
(Capacidade de produzir malformações congênitas no feto)
|
|
Interferon
|
C
|
Desconhecido
|
Evitar
|
_________
|
População
geral
|
|
Glatirâmer
|
B
|
Sim
|
Evitar
|
Não
cruza placenta
|
____________
|
|
Mitoxantrone
|
D
|
Sim
|
Evitar
|
Cruza
placenta
|
Sim
|
|
Natalizumabe
|
C
|
Desconhecido
|
Evitar
|
Cruza
placenta
|
Sim
|
|
Fingolimode
|
C
|
Sim
|
Evitar
|
Cruza
placenta
|
Em ratos
anomalias congênitas
|
|
Fumarato
|
C
|
Desconhecido
|
Evitar
|
Desconhece
se cruza placenta
|
Não em
ratos e coelhos
|
|
Alemtazumabe
|
D
|
Desconhecido
|
Evitar
|
Desconhece
se cruza placenta
|
Em ratos
alterações
farmacológicas durante
e pós-parto
|
|
Ocrelizumabe
|
Desconhecido
|
Desconhecido
|
Desconhecido
|
Desconhecido
|
Desconhecido
|
|
Daclizumabe
|
C
|
Um pouco
|
Evitar
|
Desconhecido
|
Em
macacos
|
|
Laquinimod
|
Ainda em
aprovação
|
Sim
|
Evitar
|
Cruza
placenta
|
Má formação em ratos, mas não em coelhos
|
|
Teriflunamida
|
X
|
Sim
|
Evitar
|
Cruza
placenta
|
Más formações em animais
|
|
Rituximabe
|
C
|
Desconhecido
|
Evitar
|
Desconhecido
|
Desconhecido
|
Observações:
- Deve-se utilizar anticoncepcional em idade fértil quando em uso dessas medicações.
- Fingolimode – após parada esperar 2 meses para engravidar
- Alemtazumab – utilizar anticoncepcional 4 meses após infusão
Conseguirei
cuidar de meu filho? Vê-lo crescer?
Essa questão é universal para cada mãe e pai. Dúvidas sobre: Como estarei? Darei conta? E se tiver
alguma limitação maior?
Quem conhece o amanhã?
Essas dúvidas são inerentes ao ser humano, à recém-mãe e ao
recém-pai com ou sem esclerose múltipla, sem ou com limitações visíveis ou
não.
A vida é uma caixa de surpresas, com erros e acertos,
alegrias e tristezas, medos e superações.
Questões a serem respondidas:
Olhar com benevolência e resiliência para com a vida.
Adaptações talvez sejam necessárias, planejamento minucioso e organização das
atividades e do ambiente doméstico. Um terapeuta ocupacional pode auxiliar na escolha e adaptação de objetos, disposição deles, pequenas
modificações nas rotinas, de técnicas de conservação de energia e transformar o dia a dia mais simples.
Aconselhamentos
– Síntese
- Gravidez não interfere negativamente na doença.
- Gestação planejada. Suspender medicação previamente.
- Puerpério: maior risco de surtos. Discussão: amamentação x reintrodução de medicação.
- Binômio gestante x médico próximos.
- Individualização: cada pessoa é única, com seus anseios, suas dúvidas. Apreensões sobre capacidade de cuidar da família a curto e longo prazo. Isso te faz humano.
Liliana Russo
Neurologista
Diretora técnica da ABCEM
Fontes
Act. Obst.ginec.port. 2013; 7(4): 293-297
Buraga,i.,popovici,r. Multiple sclerosis
and pregnancy: current considerations – scientific world journal: publish
online 2014 april7.
Lorenzi,a.r., ford,h.l., multiple
sclerosis and pregnancy – postgrade med j 2002 78:460-464.
Confreaux, m.d, et al. – rate pregnancy
related. Relapse in ms.g new engl.j.med. 998,39:285-291
Paulista, médica graduada
em 1987 pela faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes. Pelo
interesse e grande curiosidade do desempenho da mente humana e bem como a
interação do sistema nervoso central com o meio interno e externo, especializou-se
em Neurologia Clínica , em 1990, pelo Hospital do Servidor Público Estadual.
Buscou estudar a relação de trabalho e riscos à saúde, realizando estudo lato
sensu, em 1997, pela Universidade São Francisco. Não satisfeita com a visão
cartesiana e Galênica do ser humano e da medicina atual, buscou uma visão mais
holística, por meio de especialização lato sensu em Homeopatia, em 1996, pelo
Centro de Estudos do Hospital do Servidor Público Municipal e Medicina
Tradicional Chinesa, em 2000, pelo mesmo Centro. E é com esta óptica
amplificada que visualiza e aborda o ser humano hoje. Atuação Profissional:
Médica Neurologista - sócia e Diretora Técnica da Holus Serviços Médicos Ltda -
Médica Neurologista Assistente da Casa da Esperança de Santo André - Médica Neurologista
e de Apoio nas Atividades Científicas da Associação Brasileira de Esclerose
Múltipla - Médica Neurologista Voluntária no Ambulatório de doenças
desmielinizantes, da Faculdade de Medicina da Fundação ABC. Participante
em diversos congressos nacionais e internacionais e publicação de artigos
científicos. Diretora técnica da ABCEM.






Parabéns!
ResponderExcluir🙆👏👏👏