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terça-feira, 12 de setembro de 2017

Acessibilidade: ainda falta muito?


Fonte: http://turismoadaptado.com.br/blog/2011/06/24/casa-de-eventos-sem-acessibilidade-e-multada-em-dez-mil-reais-pela-subprefeitura-de-itaquera/

Ando com auxílio de um andador de rodas, pois não tenho mais o equilíbrio para dar dois passos sem cair. Sem o andador preciso ter algo em que me apoiar.

Outro dia fui numa padaria na qual, quando não tinha dificuldade alguma, ia sempre. Ao chegar lá já vi dificuldades. Andar pela padaria com o andador era impossível,  pois não havia espaço. Para pedir o pão eu teria que passar por um lugar em que o andador não tinha como atravessar, uma vez que do lado esquerdo havia uma geladeira de sorvetes e do lado direito gôndolas com produtos. Ainda bem que eu estava com meu marido e ele foi até lá pra mim.

Precisei ir ao banheiro e não encontrei banheiro para pessoas com deficiências. Se existia deveria estar longe ou sem sinalização, pois eu não vi. Ainda bem que eu ainda consigo ficar em pé me apoiando, senão não conseguiria ir ao banheiro pois o andador não coube nele.

Percebo que ainda falta muita coisa para todos terem a chamada ACESSIBILIDADE. 

Muitas vezes me pergunto: e um cadeirante? E uma pessoa que não consegue se levantar ou que não tem equilíbrio para ficar em pé mesmo se apoiando? Eu mesma poderia ter comprado muito mais coisas se conseguisse andar pelo local todo! A gente percebe que os funcionários tentam ajudar, mas e os proprietários dos locais?

Ainda tem muita coisa em matéria de acessibilidade que precisa ser feita. E não é somente em comércios, é em residências também! Muita gente ainda sobe escadas. Não estou sendo pessimista, mas REALISTA: e quando não conseguirem mais subir? 

Sabemos que por mais exercícios e fisioterapias que façamos, a Esclerose Múltipla é uma doença degenerativa e que um dia, mais cedo ou mais tarde, vamos precisar andar com o auxilio de uma bengala, andador ou cadeira de rodas. Será que vamos ter dinheiro para comprar e instalar em casa um elevador ou aquela cadeira para subir escadas?


Enquanto não conseguimos a verdadeira acessibilidade, vamos nos virando. E isso é até bom, pois temos que colocar nosso cérebro para trabalhar! E se não conseguir fazer sozinho, exercite o “pedir ajuda, pois, ainda temos pessoas muito boas no mundo!



Isamara Cardoso Pimentel



Publicitária aposentada por invalidez

Diagnosticada com esclerose múltipla desde 2007






quinta-feira, 6 de julho de 2017

Você é acessível?



http://ovoodafenix.com.br/presa-a-solidao/


O conhecimento fica mais completo cada vez que é dividido 
em palavras e se torna acessível a muitas pessoas.
(Ivenio Hermes)


Muito se fala sobre lugares acessíveis,  porém, pouco se fala sobre pessoas acessíveis.

Eu tenho tido contato com muitos pacientes depois do meu diagnóstico de esclerose múltipla e posso assegurar que muitos não são acessíveis, são pessoas que se fecharam em conchas e não permitem que elas sejam abertas por ninguém.

Tenho pleno entendimento que a personalidade humana é multifacetada. Ninguém é igual a ninguém e ainda bem que é assim. No entanto, a fim de que possamos sobreviver neste mundo que está cada dia mais globalizado, temos de nos inserir como gente no meio das gentes que estão lutando e vivenciando o mesmo ou o extremamente parecido que nós. Simplesmente negar que estamos doentes, ou minimizar os sintomas alheios porque nós nunca os sentimos, são formas de nos tornar inacessíveis aos que nos buscam com a finalidade de compartilhar suas dores e angústias, ou mesmo suas vitórias e superações, na companhia da Esclerose Múltipla. 

Ser alguém acessível, para mim, é respeitar opiniões, respeitar as limitações alheias, é aceitar que ninguém tem de pensar ou sentir o mesmo que eu sinto, nem muito menos ter a mesma forma de enfrentamento que eu tenho. Seres humanos são diversos e muitas vezes divergentes, mesmo quando estão lutando contra o mesmo mal. 

Conheci pessoas para as quais  falar sobre a EM é tabu. São esclerosadas, mas se negam a dizer até mesmo para a própria família, para o chefe no emprego, para os amigos, na verdade, negam até para si mesmos que possuem a enfermidade. Daí vem a pergunta: como pessoas assim serão acessíveis aos tratamentos? Como serão acessíveis às novas condições de vida que a EM a curto ou a longo prazo pode acabar impondo? 

Por outro lado, também conheci pessoas que estão com muitas sequelas visíveis. Problemas de marcha, de fala e tantos outros que a EM pode provocar, mas que negam isso para elas mesmas e, por essa razão, negligenciam tratamentos, se recusam a fazer terapias (como fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e outras) e até mesmo às consultas neurológicas elas deixaram de ir porque acreditam mais nas terapias alternativas do que na medicina tradicional. Nada contra, cada um sabe o que é melhor pra si, no entanto, sabemos que a EM não é uma doença que vai desaparecer das nossa vidas. Ela veio pra ficar e se for negligenciada ou relegada a segundo plano irá se agigantar até nos deixar fora de combate. Temos de ser acessíveis aos tratamentos disponíveis e usar as terapias alternativas como complemento e não como tratamento único. 

Outro ponto que faz de nós seres acessíveis é quando nos propomos a informar e conscientizar sobre a nossa doença, pois só assim derrubaremos as fronteiras do preconceito e de todo o misticismo que cerca a EM. Não bastam as campanhas realizadas pelas organizações de apoio, precisamos nos tornar acessíveis e esclarecer a quantos pudermos sobre a diversidade de sintomas, a imprevisibilidade, as multifacetas que nossa companheira de vida possui, porém para que façamos isso, antes de tudo, temos de ser acessíveis a receber informações para que possamos conhecer detalhadamente o que se atrelou a nós porque temos de ter conhecimento do que falamos para sermos pessoas verdadeiramente acessíveis.

E você, é acessível?

Bete Tezine



"A arte, em todas as suas formas de expressão, tem o poder de mudar os rumos de uma história que desde o começo estava fadada ao fracasso..." 
(Bete Tezine)


Nascida em Santo André, SP, 49 anos, advogada, artista plástica, professora universitária de Artes Plásticas, mãe de 2 filhos (1 adulto e 1 adolescente), diagnosticada com Esclerose Múltipla em fevereiro de 2012 e atual presidente da ABCEM



terça-feira, 6 de junho de 2017

Autoinclusão


Fonte: http://www.filosofiahoje.com/2014/01/inclusao-social-de-verdade.html

Estava pensando na falta acessibilidade para pessoas com deficiências ou com dificuldades motoras, como é meu caso. Fui diagnosticada com Esclerose Múltipla em 2007, mas somente em 2010 ela começou a mostrar pra que veio com toda força. Andei de bengala, depois passei pra andador, e agora estou com meu andador inseparável de rodinhas! Ele me faz andar mais rápido, mas ultimamente as pernas não têm ajudado e acabo indo devagar...

Sempre me dou mal com escadas, pois não tenho equilíbrio e não consigo levar o andador, me equilibrar e subi-las.  Para isso fizeram as rampas! Mas na maioria dos lugares que frequento elas não existem, motivo pelo qual  acabo evitando os locais. Aliás, acabo evitando vários lugares!

E quando existem rampas, mas elas são muito íngremes? Fiz dois anos da faculdade de arquitetura depois que terminei a faculdade de Publicidade e Propaganda, então sei que as rampas devem ter uma inclinação adequada. E as rampas que tem um degrauzinho para chegar até elas? Fico me perguntando como um cadeirante consegue usá-las. Então a inclusão para locomoção ainda tem muitas falhas!

E a inclusão no meio social? Hoje muita gente já tem conhecimentos sobre doenças e deficiências, mesmo assim ainda falta muito conhecimento por parte do povo (me incluo nisso).

E a inclusão que nós mesmos temos que ter conosco? Essa é a mais difícil. Demorei, quando comecei a ter mais dificuldade para andar, a me aceitar. Eu já me achava feia, não tinha mais meu ex-marido que foi embora alegando que nunca me amou. Não conseguia namorado. E ainda por cima vem uma esclerose múltipla que estava me impedindo de andar. Me aceitar já era complicado, acabou se tornando impossível, até o momento em que, lendo muito, ouvindo muito, refletindo muito, percebi que eu teria que me gostar e me aceitar antes de qualquer um. Como eu poderia exigir algo que nem mesmo eu fazia?

Em 2013, depois de me aceitar e me amar, arrumei um namorado que hoje é meu marido e cuida muito de mim. 

Hoje posso exigir dos outros, pois ME ACEITO e não tenho vergonha de pedir ajuda quando preciso. Me aceito com minhas limitações, com minhas imperfeições. Acima de tudo, me amo e não coloco a culpa na Esclerose Múltipla, nem nos outros, se algo não sai como eu queria. Aprendi a ter mais paciência comigo e a não desistir. Aprendi a INSISTIR dentro de minhas limitações.


Isamara Cardoso Pimentel



Publicitária aposentada por invalidez

Diagnosticada com esclerose múltipla desde 2007




quarta-feira, 5 de abril de 2017

Qual o erro?


Fonte: acervo pessoal

Vocês repararam na foto? Qual o erro dela? Olhem que coisa, a porta do banheiro de deficientes está trancada com cadeado!!!

Quando vi isso quis muito compartilhar com vocês porque é uma situação que acontece direto. É banheiro trancado, vaga de estacionamento com cone na frente e por aí vai.

E me pergunto o que acontece na cabeça de uma pessoa de ter banheiro especial ou vaga especial, mas que deixa com impedimentos que atrapalham quem precisa usar. Afinal, de nada adianta ter lei, ter a vaga reservada, mas não garantir a acessibilidade necessária de quem precisa.

Será que é tão difícil entender que as pessoas que fazem uso dos banheiros adaptados ou das vagas especiais é porque realmente precisam? Quando vou reclamar, o que mais ouço, é que estão trancados porque quem não precisa está usando também. Ora, mas se está trancado até quem tem direito não pode usar!

Fonte: acervo pessoal

Então, ainda precisamos continuar exigindo que os direitos das pessoas com necessidades especiais sejam respeitados e sempre denunciar e reclamar se alguma coisa estiver errada. É importante reclamar para que as coisas melhorem e as empresas entendam que o importante é garantir o acesso, porque ter trancado é a mesma coisa que não ter.

Penso sempre nesse banheiro com cadeado. Quem tem esclerose múltipla sabe que banheiro é caso de urgência, não dá tempo de buscar chave, não dá tempo de nada. Imagina encontrar trancado... É sinônimo de acidente!

Só lembrando que a esclerose múltipla dá sim o direito à fila preferencial, banheiro adaptado, vagas de estacionamento. Pode usar sim e se questionarem é só mostrar a carteirinha que comprove a condição, pois algumas vezes a deficiência não é aparente e as pessoas nem sempre são solidárias. No estacionamento precisa do cartão DEFIS (clique aqui para saber como conseguir o seu na região do Grande ABC) aparente no carro. Mas pode usar com certeza.

Use e não tenha receio dos olhares dos outros, cada um sabe da sua necessidade.

Camila Zucareli P. Ribeiro
Advogada


Nascida em São Paulo, SP, 40 anos de idade, advogada. Especialista em direito empresarial e especialista em direito previdenciário. Atuou em escritórios e empresas sempre com a preocupação de melhorar o ambiente e trabalho e incluir a pessoa com deficiência nas empresas. Desde 2010 também é empresária. Já morou em Santos hoje mora em São Caetano e está sempre buscando aprender coisas novas. É casada, tem uma filha e adora viajar. Foi diagnosticada com esclerose múltipla bem no meio da Copa do Mundo de 2014.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Coincidências ou providência Divina?


Fonte: http://pensopositivo.com.br/coincidencias-existem/


Fonte: acervo particular
Muitas vezes acontecem coisas tão interessantes em nossas vidas, que costumamos dizer: "que coincidência!". Mas acontece que nem sempre é mesmo coincidência. Diariamente, Deus age em nossas vidas e às vezes nem percebemos.


Quando me formei, prometi que não iria montar consultório em  cima de farmácia, padaria e outros lugares parecidos por uma série de vivências...

Em 2005, montei meu consultório em um sobrado. Atendia sete pessoas com deficiência e ficava acabada emocionalmente nesse dia. Uma era carregada pelo irmão até o consultório, outra subia sentada e de costas os degraus.

Prometi pra mim mesma com ajuda de Deus mudar isso...

Em 2007, comprei cadeiras em que os pacientes não precisam deslocar-se da cadeira de rodas. A cadeira odontológica é toda articulada, o que permite dar comodidade para o paciente.
Fonte: acervo particular

Em 2012, montei a clinica em uma casa térrea com rampa para o acesso. 

No mesmo ano, comecei a ter dificuldades de locomoção, já não tinha mais força nas pernas para subir escadas e, em 2015, tive o diagnóstico difícil de esclerose múltipla.

Amo o que faço e não sei fazer outra coisa. E se o consultório ainda estivesse no andar de cima sem acessibilidade???

Ainda não está de um modo adequado, mas não é porque TENHO ESCLEROSE MúLTIPLA que morri ou não tenho sonhos.

Estamos tão ocupados e preocupados com o trabalho, com os afazeres do dia a dia, com problemas particulares (saúde, finanças etc) que terminamos nos esquecendo de Quem nunca se esquece de nós: DEUS!

Fonte: acervo particular

Podem até não acreditar, Mas agradeço a Deus por ter me dado a Esclerose, ela me freou e aproveito mais intensamente os momentos antes despercebidos.

Coincidências ou Providência Divina? Analise...

Há tantos outros exemplos que vivenciamos diariamente e muitas vezes nem percebemos. É por isso que devemos lembrar: "A tudo dai graças!".

AMÉM!

Juliana Pelisser
Cirurgiã-dentista







Cirurgiã-dentista desde 2001. Formada pela Universidade Estadual de Araçatuba. Com Esclerose Múltipla desde 1998 e diagnosticada em 2015.




quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Princípios do desenho universal


Fonte: http://livingdesign.com.br/2015/08/desenho-universal-um-design-de-conceito-simples-mas-que-e-vital/#.WC46pvorLIU

Vocês sabiam que existem 7 princípios do desenho universal (desenvolvido em 1997 na Carolina do Norte)? Esses princípios funcionam como um guia para a criação e elaboração de projetos inclusivos, tentando abranger ao máximo todos os tipos de pessoas.

A seguir vou falar um pouco sobre esses 7 princípios:

1- USO EQUITATIVO (IGUALITÁRIO)

O lugar deve proporcionar a mesma utilização a todas as pessoas, evitando segregar qualquer grupo ou minoria, por exemplo, um comércio com porta automática é útil para pessoas com cadeira de rodas ou amputados nos membros superiores, mas também é útil para a mãe ou o pai que está levando um carrinho de bebê, para aqueles que não têm muita força nos braços ou pessoas que estão carregando sacolas.

2- USO ADAPTÁVEL

O mobiliário e os espaços devem atender pessoas com diversas preferências, podendo ser adaptável para qualquer uso. Exemplo: mesas com cadeiras fixas servem para dificultar a vida de todos, dos baixinhos que provavelmente vão ficar longe da mesa, quem é alto fica com a perna apertada e quem usa cadeira de rodas simplesmente não consegue utilizar a mesa. Por isso, a melhor opção é uma mesa com cadeiras móveis, que cada pessoa poderá usar de acordo com a sua necessidade.

3- SIMPLES E INTUITIVO

Um lugar ou símbolo que seja de fácil entendimento, independente do conhecimento, habilidade de linguagem, nível de concentração ou idade. Sabe aquele desenho que indica banheiro feminino ou masculino? Pois é, TODOS sabem o que significa aquele desenho.

4- INFORMAÇÃO PERCEPTÍVEL

Quando a informação chega a todas as pessoas de forma eficaz, mesmo que sejam necessárias várias formas de comunicação (símbolos, letras em relevo, braille).

5- TOLERANTE AO ERRO (SEGURO)

O local minimiza os riscos de acidentes, intencionais ou não. Dessa forma, o que é mais utilizado se torna acessível, o que é perigoso é eliminado ou isolado do alcance das pessoas. Exemplos: elevador com censores em várias alturas, para não correr o risco da porta fechar enquanto estiver entrando alguém; escadas e rampas com corrimão.
  
6- BAIXO ESFORÇO FÍSICO

Algo que é utilizado com o mínimo de esforço, sem causar cansaço. Por exemplo, torneiras com sensor ou maçanetas tipo alavanca, que exige um menor esforço do que maçanetas de girar.

7- ABRANGENTE

Muito parecido com o primeiro princípio, porém este se refere ao espaço físico. É um local com dimensões mínimas necessárias para que todas as pessoas possam utilizá-lo, independente do tamanho, da deficiência ou da mobilidade. Exemplo: um banheiro acessível que contempla todas essas pessoas.


Camila Pavan
Arquiteta



Estudou Arquitetura e urbanismo na instituição de ensino Universidade Presbiteriana Mackenzie.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Cara de deficiente


Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/06/150616_super_reconhecedores_rosto_teste_rb


Ah! esta situação provavelmente todo mundo (que tem deficiência) já ouviu pelo menos uma vez na vida: você está na fila preferencial, ou na vaga preferencial, as pessoas olham feio, alguém toma coragem e fala "e aí seu folgado, cara de pau, aqui é preferencial", e você responde "mas eu tenho deficiência (ou mobilidade reduzida)", a criatura te olha com aquela cara de chocado e fala a célebre frase "nooooossa, você não tem cara de deficiente".

E aí  eu pergunto, o que é ter cara de deficiente? É ser feio? Ter aquela cara meio duuur? Ter uma aparência de pessoa sofrida, triste, abatida e depressiva?

Às vezes eu fico imaginando, a pessoa está la de boa, de repente ela sofre um acidente ou por alguma doença acaba perdendo os movimentos, e aí PAH! a cara da pessoa muda, ficou com cara de deficiente.

Geeente, pelo amor né? as coisas não funcionam assim, deficiência não tem cara, não tem cor, não tem gênero, não tem nível social.

E a você que quando vê alguém alegre, bem resolvido com a vida, e acha estranho quando descobre que essa pessoa tem deficiência, sinto em informar, mas pessoas com deficiência têm uma vida igual a você, essas pessoas têm amigos, saem pra passear, se divertem, brigam, dão risada até a barriga doer, choram, dão a "loka" de vez em quando.

Estamos em 2016 (quase final de 2016), como já vimos anteriormente, no texto Acessibilidade psicológica (clique aqui para ler), acessibilidade não é somente o que diz respeito à arquitetura do lugar, mas também como a sociedade acolhe as pessoas com deficiência e mobilidade reduzida.

Camila Pavan
Arquiteta

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Descoisando o que está coisado (sobre acessibilidade)


Fonte:  http://blogdainclusaosocial.com.br/wp-content/uploads/2014/02/FALTA-DE-ACESSIBILIDADE.jpg

Hoje vamos falar um pouco sobre acessibilidade e sobre como ela é vista e entendida de forma errada pela maioria das pessoas, incluindo os arquitetos!

1° "Acessibilidade serve para deficientes físicos".

- Não, acessibilidade não serve apenas para pessoas com deficiência física, mas serve TAMBÉM para pessoas com deficiência física.

A acessibilidade nada mais é do que tornar algo acessível, e ela serve para pessoas com deficiência intelectual, visual, auditiva, pessoas com mobilidade reduzida, idosos, gestantes, pessoas com criança de colo, pessoas com carrinho de bebê, pedestres, pessoas que estão andando com várias sacolas na rua, pessoas distraídas, pessoas que estão temporariamente com mobilidade reduzida porque quebraram o pé, a perna, o braço ou qualquer outra parte do corpo. Com certeza de algum desses quesitos você fará parte em algum momento da sua vida. 

Uma caçada toda esburacada não é ruim apenas para quem anda com cadeira de rodas, mas é ruim para qualquer pedestre.

2° "Melhor conseguir entrar no prédio com ajuda do que não conseguir entrar".

- Melhor conseguir entrar no prédio com autonomia e dignidade, ninguém quer ser carregado e ajudado 24 horas por dia, isso faz com que a pessoa se sinta um peso para a sociedade. Lembrando também que muitas vezes tem alguém que precisa andar com a pessoa o dia todo, imagina uma mãe com um filho adulto, tendo que ajudar o filho a subir no ônibus, ajudar a levantar a cadeira de rodas em cada loja que entrar, por causa do degrau, empurrar a cadeira naquelas rampas inclinadas, não da né? haja preparo físico.

3° "A gente faz uma entrada principal, coloca uma escadaria bonita, aí no fundo a gente coloca uma entrada para deficientes".

- Todo mundo entrando bonitamente pela entrada principal, menos a pessoa com deficiência, "desculpa, você tem que ir naquela entrada meia boca, bem escondida lá no fundo". E não me venha falar que é preocupação fazer uma entrada separada porque não é, todos nós sabemos que isso é preguiça de projetar pensando em todos, aliás, isso me lembra o Teatro Municipal que quando foi construído possuía a Entrada da Primeira Ordem, onde ficavam as autoridades e a elite, a Segunda ordem, onde ficavam as pessoas ricas, e a Terceira ordem, apelidada de galinheiro (por esse nome não preciso nem explicar).

Quando separamos uma entrada por classe social é bem estranho, então quando separamos por "pessoas sem deficiência" e "pessoas com deficiência" também deveria ser estranho.

4° "Como arquiteto, você tem que avaliar a data de construção, se o edifício é tombado, se na época construída as pessoas pensavam em acessibilidade".

- Como um ser humano dotado de cérebro, você tem que pensar que a pessoa com deficiência só quer saber se ela consegue entrar no edifício ou não. Tanto faz se é da década de 50, 60 ou 70, se na época não se pensava em acessibilidade, porque agora nós pensamos em acessibilidade (ou deveríamos) e é nosso dever não se conformar com o que acontece de errado no nosso meio.

A acessibilidade não é só norma, precisamos nos colocar no lugar do outro, pensar como uma pessoa com dificuldade usaria o lugar e se ela conseguiria usá-lo.

O mundo evoluiu, várias coisas que no passado eram consideradas normais, hoje vemos o quão absurdas eram. Desejo que no futuro, a falta de acessibilidade seja uma dessas coisas.


Camila Pavan
Arquiteta


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Bravinho pela fila preferencial?





Hoje a conversa é com você que faz cara feia quando está no restaurante, na fila do mercado, do banco, da loja de roupa e um deficiente chega 10 horas depois de você e passa na sua frente, "MEU DEUS, QUE ABSURDO, POR QUÊ?" Então vamos la, farei uma série de perguntas e você responde apenas com sim ou não: 

Caso você tenha filho(a), quando você estava grávida, por um acaso você fez planos sobre seu filho sendo o primeiro da turma, sonhou em vê-lo todo pintado e escrito "usp" na testa, imaginou como seria o dia da formatura, aquela hora que todos jogam o capelo para cima, depois a hora do casamento, levando a filha até o altar, depois pensou nos netinhos, será que seu filho vai ter menina ou menino? Mas de repente todos os sonhos foram por água abaixo, "olha, seu filho nasceu com um probleminha"..."talvez ele não vá falar", "nós ainda não sabemos direito o que ele tem", ou "ele vai viver até os 3 anos, e se viver será com sequelas" e então seu mundo de sonhos se tornou em incertezas sobre o futuro? 

Quando você vai nos lugares, você sofre porque fala uma linguagem diferente, aquele tal de libras que quase ninguém usa e aí você não consegue assistir peças de teatro, ir ao cinema porque não sabe o que os atores estão falando e não tem legenda na tela, não consegue se comunicar com as pessoas (elas não conseguem se comunicar com você)? 

Você quando sai de casa imagina os espaços como uma incógnita porque não vê os obstáculos à frente, não sabe onde tem buraco na rua, onde tem degrau, onde fica a escada, a rampa, se tem carro passando, se pode atravessar a rua ou não e fica triste porque os restaurantes não disponibilizam cardápio em braile ? 

Já passou por algum inconveniente por não ter conseguido entrar em algum estabelecimento porque o acesso é somente por escadas ou não pôde utilizar o banheiro porque era muito apertado e a cadeira de roda não entrava?

 Se você respondeu NÃO para todas as perguntas, meu amigo, minha amiga, o mínimo que você faz é ficar feliz** por não usar a fila preferencial. 

**Nós também somos muito felizes, mas todos um dia já passaram por constrangimentos, incertezas e dificuldades.


Camila Pavan
Arquiteta


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Acessibilidade psicológica



Você conhece todos os tipos de acessibilidade?


Esse tema é composto por dois conceitos que o apoiam: acessibilidade e mobilidade. Quando se fala em acessibilidade, há uma série de fatores relacionados às possibilidades de acesso ao local, a trajetória que as pessoas farão para se deslocarem e as atividades que acontecerão no lugar.

O ambiente sócio físico é identificado como principal gerador das dificuldades que se impõem à livre circulação de indivíduos ou grupos, estas barreiras podem ser físicas, comunicacionais, sociais e atitudinais.

Barreiras físicas (arquitetônicas): É o primeiro tipo de barreira que vem a mente das pessoas quando se fala sobre acessibilidade. São obstáculos originados pelos edifícios ou áreas urbanas, como por exemplo, portas estreitas que dificultam a passagem de uma pessoa com cadeira de roda, rampas muito inclinadas, calçadas estreitas ou com degraus.

Barreira Comunicacional: É gerada pela falta de informações a respeito do local, como informações em braile, letras que não contrastam com a cor de fundo das placas, ou falta de placas com comunicação visual (desenhos que indicam onde ficam os sanitários ou praça de alimentação). Esse tipo de falha afeta não apenas pessoas com deficiência, mas também analfabetos ou pessoas estrangeiras que não conseguem entender a língua local.

Barreira social: É sobre a exclusão de categorias de pessoas, normalmente  as chamadas “minorias”, como grupo étnico, pessoas de classe social mais baixa e pessoas com deficiência. Sabe quando você vai a algum lugar e sente que sua presença não é querida ali?


Barreira atitudinal: Talvez a mais difícil de ser removida, pois é gerada pelo comportamento das pessoas, nem sempre de modo intencional. Por exemplo, o motorista que estaciona o carro na calçada, dificultando a passagem de pedestres, o abençoado que estaciona o carro na vaga preferencial, a pessoa que para deixar o imóvel mais bonito enfeita a calçada com vasos, aqueles que sentam no banco preferencial e não saem dali por nada nesse mundo. 

Camila Pavan
Arquiteta


quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Exclusão x inclusão perversa




Aposto que você ouviu a palavra exclusão 1 milhão de vezes, e até acha um absurdo quem pratica tal ato, mas e sobre inclusão perversa? Que raio de nome é esse?

A exclusão como todos estão cansados de saber, é o ato de excluir alguém, parece até óbvio, porém mais do que o ato de excluir, é também a condições de várias pessoas na nossa sociedade: negros, pobres, deficientes. São pessoas que não têm acesso ao lazer, educação, saúde de qualidade. No caso do deficiente, você pode ter dinheiro, mas pode não encontrar um lugar para teu filho fazer aula judô, ou você queria uma escola especial, mas ela não existe no lugar em que você mora. Excluir é privar e não dar condições de alguém fazer a mesma coisa que todos nós podemos fazer.

E aí você pensa "triste mesmo, um absurdo as pessoas excluírem os outros, ainda bem que eu nunca fiz isso", mas calma aí que "o buraco é mais embaixo". Vamos falar um pouquinho sobre inclusão perversa. Este tipo de inclusão é uma inclusão que dá as coisas pela metade, ela inclui mas não cria um ambiente favorável para que a pessoa se sinta bem.

No banco tem fila preferencial, mas se nesta fila preferencial estiverem 10 idosos, 5 deficientes, 3 mães com bebês no colo, eles vão ficar esperando na fila praticamente o mesmo tanto que as outras pessoas, deram um caixa só para eles, mas não levaram em consideração que essas pessoas não podem ficar muito tempo em pé e que talvez seria mais cômodo colocar cadeiras de espera e fazer um sistema de senha.

Outro exemplo, a famosa escola inclusiva, aquela que nós costumamos falar usando aspas, seu filho até pode ser matriculado, mas muitas vezes a escola não tem um plano pedagógico feito para a criança especial, os professores não estão preparados para atender uma criança que vai ter dificuldades para aprender, se a criança tiver deficiência física, provavelmente vai ser privada de várias atividades, porque as vezes a escola só tem escada, e estar junto de outras crianças não significa fazer parte de tudo que está acontecendo, ela apenas está ali dividindo o mesmo espaço físico.


Por fim, a inclusão perversa é muito pior do que a exclusão. A exclusão não usa máscara e nem fantasia, ela diz em alto e bom som "NÃO QUERO VOCÊ AQUI", ela não faz muita questão de se esconder, agora a inclusão perversa se fantasia de algo bonito para fazer a mesma coisa que a exclusão, ela diz de forma bem sutil "você pode matricular seu filho na nossa escola, mas isso não significa que vamos tratá-lo bem ou que vamos dar condições para que ele aprenda igual às outras crianças", "pessoa pobre, está aqui o seu emprego, mas vamos fazer de conta que isso não é um trabalho escravo, fique feliz, agora você terá dinheiro para comprar arroz e não morrer de fome", " tudo bem criança (qualquer deficiência), você pode ficar aqui enquanto nós brincamos, mas isso não quer dizer que queremos ser seu amigo". A inclusão perversa engana as pessoas, faz com que achemos que está tudo bem e que tudo está caminhando para o respeito ao próximo. Mas será que as vezes nós também não praticamos esse tipo de inclusão sem nos darmos conta?


Camila Pavan
Arquiteta 


terça-feira, 12 de abril de 2016

Como mudar?


Calçada da Av. Prestes Maia, no centro de São Bernardo  
                        Foto: Jéssica de França

Problemas nas calçadas e até em estacionamento de mercado fazem com que os pacientes com necessidades especiais tenham de enfrentar dificuldades de locomoção, o que tolhe o seu direito de ir e vir, assegurado pela Constituição Federal do nosso país.

Vamos ver: Será que as pessoas que possuem deficiências que dificultam sua mobilidade reclamam de barriga cheia? As mudanças estão acontecendo realmente?

A discussão, pelos menos aqui nos municípios do grande ABC e região, gira em torno das barreiras impostas pelas calçadas fora dos padrões de acessibilidade. Será que este problema é “público” (das próprias prefeituras) ou acaba se estendendo ao setor privado?

Deficientes visuais e cadeirantes relatam o quanto é problemático se movimentar pelas grandes cidades, reclamando que as calçadas estão esburacadas, com desníveis acentuados entre uma e outra, muitas vezes com degraus intransponíveis às cadeiras de rodas. As calçadas demonstram que não foram criadas para pessoas com deficiências e nem mesmo para quem possui mobilidade reduzida, como os idosos, por exemplo.

Porém os problemas não se restringem às calçadas. Quando uma pessoa com necessidade especial precisa ir a algum lugar público, como bancos, por exemplo, nem sempre os locais estão adaptados, o que muitas vezes impede o cliente com limitação de fazer suas operações bancárias sozinho
.
Nem há o que se falar sobre a dificuldade em estacionar nos shoppings, supermercados etc pelo uso indiscriminado, por quem não é de direito, das vagas preferenciais, sendo que quem realmente precisa acaba tendo de “brigar” até com os carrinhos de mercado parados nas vagas a ele reservadas, como se pode ver pelas fotos do supermercado  Coop, situado na Rua Suíça, 1094, Parque das Nações, Santo André – SP.


                                                                  Fotos: Iveli (20/03/2016)


E, repetindo o título do post, como mudar?

A resposta não é tão complexa como parece, pois, se cada um fizer a sua parte, começando por respeitar os direitos da pessoa com deficiência e pensar que um dia qualquer um pode passar por isso também, já teremos um grande avanço no quesito acessibilidade.


Ivi Paula de Souza
Jornalista
Primeira Secretária ABCEM