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Fonte: Acervo pessoal
Fotografia: Rodrigo Soares |
Muitas mulheres esclerosadas
se perguntam se podem engravidar. Esse foi o caso, inclusive, da atriz Claudia
Rodrigues. Pois bem, em termos médicos, esclerosadas estão totalmente aptas a
gerar filhos, apresentando, em geral, estagnação ou até melhora durante o
período gestacional. O maior problema tende a ser o pós-parto. Mas, nada que
não possa ser contornado com acompanhamento médico. Diante disso, meu objetivo
aqui não é falar sobre as possibilidades médicas (até porque, não sou
especialista), mas, contar como vem sendo a minha experiência em ser
mãe.
Há exatos 5 anos, eu havia
acabado de me separar e, apesar de toda a depressão e falta de apetite que
problemas no relacionamento sempre me causaram, comecei a sentir uma fome
enlouquecedora! Fome de salada, de feijão, de fígado! Coisas que eu quase nem
comia! Além disso, era carnaval e eu estava saindo, fumando e bebendo, ou seja,
abusando muito! Num sábado, então, dia 12/03/2011, senti muita cólica, sendo
obrigada a faltar ao aniversário de uma grande amiga! Obviamente, achei que era
uma simples TPM e não quase um aborto! No jantar, ao devorar uma salada como se
fosse um petit gateau, minha mãe "levantou a bola" e eu comprei um
teste de gravidez! Eu achei aquela ideia a maior loucura, afinal, ainda nem
tinha dado tempo da minha menstruação atrasar direito. No domingo, acordei na
casa da minha mãe e logo veio o berro: "mãeeeee, socorroooo! tô
grávida!" O mais engraçado de tudo foi a resposta dela: “Ai, Liane, que
susto! Era só isso!? Calma! Você é adulta, tem emprego, já se formou!” E eu só
pensava: sou separada, e o mestrado? Esclerosada, tomo remédios, e mal cuido de
mim!
Lembro que avisei minha irmã e
uma amiga, a quem pedi que levasse testes de gravidez para o trabalho. Afinal,
eu ainda não tinha acreditado. No dia seguinte, lá estava eu, no banheiro do
trabalho fazendo 5 testes de gravidez (todos, instantaneamente, positivos) e
ainda dizendo que só podia estar errado! Dali, saímos à caça de um local para
fazer teste sanguíneo de beta hcg! E nada de eu encontrar isso por perto do
trabalho, ainda mais sem pedido médico e escondida dos colegas e do chefe.
Enfim, marquei um ginecologista para menos de 24h. Depois, suspendi por conta
própria o betaferon (medicamento que usava para esclerose, na época). E lá fui
eu, no dia seguinte, aceitar, através de um ultrassom, que realmente estava
G-R-Á-V-I-D-A!
Daí em diante, um mix de
coisas aconteceu: 1) decidi ter a criança, 2) liguei pro pai da barriga, 3)
liguei pro MEU pai e 4) liguei pro meu anjo (o neurologista, doutor Maurice
Vincent)! Marquei uma consulta com ele que disse calmamente: "Sua EM está
dormindo há 6 anos, desde que você a descobriu. Suspenda tudo! Seja uma grávida
totalmente normal! Amamente! Apenas, observe se algo mudar!" Passei os 9
meses muito enjoada, com uma azia insuportável, mas sem nem pensar em
esclerose. O que, naquela época, eu fazia magistralmente: ignorava que era
esclerosada e parecia que, assim, a doença também me ignorava! Que bom que,
além de grande médico, o doutor Maurice é bastante zen, pois acho que, se não o
fosse, talvez me alertasse de coisas (como o risco de surtos no puerpério) que
pudessem me deixar mais nervosa e, quiçá, me fazer surtar! Acho que todos
já ouviram que "ignorância é uma benção"!
Fui à feira de gestante com
minha mãe e irmã, montei o quarto do bebê decorado, comprei coisas em brechó,
separei roupas por tamanho, fiz um “charrasco" de bebê pra família e
amigos, etc. Tudo e até mais do que uma mãe normal faria e um bebê normal
precisaria! Cheguei a fazer hidroginástica como qualquer grávida em piscina
aquecida. Resultado: durante toda a gravidez, a única coisa anormal que senti
foi dormência na perna direita, que atribuí à EM e à água quente da hidro, mas
que se mostrou, com o tempo, ser o peso da barriga tendendo para esse lado. Ou
seja, nem tudo é esclerose, e o limite entre o "ser e o não ser é a
questão". Porque, de fato, é bastante tênue!
Se me perguntassem hoje:
Foi difícil estar grávida? Diria que foi a parte mais simples, apesar de ter
tido um pré-natal maluco. Ele incluiu desde tomografia com administração de
contraste nas primeiras semanas de gestação, enjoos, azia, quedas de pressão,
troca de médicos devido a problemas com plano de saúde, falta de exames
cardíacos do bebê, por questões de desatualização médica, até o ápice, minha mãe e
irmã, “invadindo” a maternidade com malas, à 0h, voltando de Gramado!
Percebam que a EM pouco foi notada!
Você teria outro filho? Com certeza! Mesmo sabendo que posso ter problemas no
pós-parto. Inclusive, afirmo isto apesar de estar em surto e saber que o ideal
é permanecer 2 anos sem surto antes de engravidar. Arriscaria, sem
arrependimento. Mas, dessa vez, de forma programada e com TOTAL acompanhamento
médico.
Você se arrepende por ter engravidado sem querer? De forma alguma! Na verdade,
acredito que, se não fosse assim, provavelmente, nem teria sido mãe até hoje,
pois costumo pensar MUITO, e agir POUCO.
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Fonte: Acervo pessoal
fotografia: Rodrigues Soares |
Lucas nasceu em outubro de
2011, de cesareana, com 4,050 kg e 52 cm, TOTALMENTE SAUDÁVEL, no calor forte do
Rio de Janeiro. Eu, por minha vez, fui mãe como qualquer outra que cuida, dá
banhos, troca fraldas, passeia, vai ao pediatra e fica sozinha, por vezes, com
o bebê. Fiquei de licença e amamentando até que ele completasse 10 meses! Tirei
fotos e fiz álbuns e comemoração de “mesversários” todos os meses! Se não
bastasse ter sido mãe, aos 10 meses, Lucas abriu a cabeça ("coisinha
leve": 38 pontos e um escalpo parcial). Além disso, essa foi uma fase bem
tensa para a saúde do meu pai, eu havia retornado ao trabalho e ainda almejava
concluir o meu primeiro mestrado. Somando a tudo isso os exames necessários
para retomar o tratamento da EM, só voltei a ser medicada para a doença e, de
fato, a pensar em esclerose, no final de 2013, ou seja, mais de 2 anos depois
do parto.
Não posso deixar de mencionar
que tenho um super apoio do meu marido e também da minha família. Ainda que
eles não entendam como é ter esclerose e como ela mexe, inclusive, com meu
emocional, sempre tentam me ajudar da melhor forma que podem. Muitas vezes, não
é a forma que eu espero, desejo ou que é mais imprescindível, mas “toda ajuda é
sempre bem-vinda”. Essas presenças têm sido essenciais desde 2013 quando, inicialmente, comecei a ficar tonta, o que culminou numa grande insegurança e
em um “belo” surto em 2015. Atualmente, não fico sozinha com meu filho, não por
não conseguir SEMPRE, mas por ter medo que alguma emergência ocorra e que ele
não tenha discernimento para agir com seus poucos anos de idade. Nesse ponto, a
presença do meu marido é crucial e acontece em quase todo o tempo que ele tem
disponível. Não acho que isso diminua a minha luta diária, mas a torna,
certamente, mais fácil e, quiçá, possível.
Com tudo o que aconteceu na
minha gravidez, só posso dizer que, acho maravilhoso e favorável que
esclerosadas gerem seus filhos e sejam mães. Dizem por aí que sou guerreira...
Pois eu digo a vocês que guerreiro é meu filho. Diante de tudo o que passou e
passa, vence barreiras a cada dia e sempre sorrindo! É olhando para ele que eu
vejo o quanto desistir seria um ultraje! Uma injustiça! Contudo, não seria
hipócrita de dizer que é SEMPRE fácil. Na verdade, raramente o é, mas é
MARAVILHOSO! Aprendi com o nascimento de Lucas que tudo o que tem que ser é! E
que, se o passado não volta e o futuro não nos pertence, temos de viver o hoje
da melhor forma possível. Sei que não sou nem de longe a melhor das mães e tampouco
convencional, mas sei que sou, a cada dia, a melhor que posso ser e aprendi a
me aceitar e ser feliz com isso! E mais importante: essa aceitação não tem
relação apenas com a esclerose múltipla! Hoje, vivo tentando saborear o queijo
suíço, em vez de lamentar seus buracos. E o melhor de tudo é que sou
acompanhada e, por vezes, guiada pelo meu pequeno grande príncipe de 4 anos!
Liane Moreira