A natureza nos uniu em uma imensa família, e devemos
viver
nossas vidas unidos, ajudando uns aos outros.
(Sêneca)
Eu tenho visto, constantemente, desabafos de pessoas com
Esclerose Múltipla acerca da incompreensão familiar no que tange,
principalmente, aos sintomas invisíveis da nossa companheira comum. São
cônjuges, filhos, pais, irmãos, primos, tios, avós e toda a gama de parentela
que se acham no direito de criticar, julgar, trazer receitas ditas milagrosas,
mas que não fazem o que é essencial a todos os que convivem com sintomas tão
debilitantes quanto aos que a enfermidade nos impõe, ou seja, não compreendem e
apoiam, não só com palavras, mas com atitudes reais. É muito comum
ouvirmos que temos de reagir, sermos fortes, deixarmos o comodismo de lado,
programar nossa cabeça para não sentimos tantas dores e, o mais comum de
todos os aconselhamentos, temos de ter mais fé. Ah! também é muito dito
que nós só ficamos bem quando nos é conveniente, como se existisse um
botão de liga/desliga dos nossas sintomas. Apertaríamos o "liga" e a
fadiga, as dores, as parestesias, as fraquezas, vertigens etc entrariam em ação
em nosso corpo para que nos livrássemos de compromissos e atividades que não
nos fossem interessantes. Acionaríamos o "desliga" e ficaríamos sem
nenhum sintoma quando fosse de nosso interesse ficar bem. Seria
maravilhoso se tivéssemos um controle remoto da Esclerose Múltipla, já
imaginaram?
Infelizmente, nós que compartilhamos da mesma enfermidade,
sabemos exatamente o quanto não temos controle algum sobre os desmandos dela.
Ela se exalta e se aquieta quando bem entende. É geniosa e impulsiva,
indisciplinada no mais puro sentido do termo e nossa vontade, fé, força ou seja
lá o que acham que podemos fazer, não contam para ela, uma vez que ela nos
impinge uma fadiga monstro sem razão nenhuma e nos obriga ao repouso,
independente de termos ou não algum compromisso para aquele momento.
É frustrante e doloroso quando ouvimos, ou mesmo,
quando vemos estampado no semblante daqueles que deviam nos conhecer
profundamente que somos preguiçosos, acomodados, fracos, que agimos por
conveniência e por ai vai. Dói na alma e isso nos fragiliza a ponto de fazer
crescer nossas dores físicas, já que não há como desligar corpo e mente, somos
um todo e é unanimidade o quanto nossas emoções interferem nos sintomas da nossa
companheira múltipla.
A família deve ser o pilar de sustentação, a base, o
alicerce de todos que convivem com uma doença deste porte. Tem de ser nosso
respaldo, nossa fortaleza na qual encontramos abrigo nos momentos em que as
forças nos faltam e nos vemos quase que totalmente entregues às fragilidades do
nosso corpo invadido, sem questionamento prévio, pela Esclerose Múltipla. A
família deve trazer aconchego e braços que sustentam nossas quedas,
sobremaneira quando surtamos e ficamos completamente à mercê de tantos
sentimentos debilitantes, uma vez que surtar é o ato máximo de esclerosar.
Por fim, quero deixar um recado para todos os nossos
familiares: vocês são nossa muralha e quando vocês nos deixam sem apoio e
compreensão, ficamos desprotegidos, frágeis e dominados pela
incerteza. O medo se faz tão latente que nos torna reféns da
Esclerose Múltipla de uma forma muito mais contundente e opressora. Não nos
julguem, por favor. Precisamos apenas e tão somente de respeito, apoio e de um
"eu te entendo" quando os sintomas estiverem mais aflorados, mesmo
que seus olhos nãos os enxerguem.
Bete Tezine
"A arte, em todas as suas
formas de expressão, tem o
poder de mudar os rumos de uma história que desde o
começo estava fadada ao fracasso..."
(Bete Tezine)
Nascida em Santo André, SP, 49
anos, advogada, artista plástica, professora universitária de Artes Plásticas,
mãe de 2 filhos (1 adulto e 1 adolescente), diagnosticada com Esclerose
Múltipla em fevereiro de 2012 e atual presidente da ABCEM.

Parabens pelo excelente artigo 😉Nenhum desafio da vida é capaz de derrubar uma família forte o bastante, desde que todos estejam de mãos dadas e cabeça erguida👏👏👏
ResponderExcluirParabens!!
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