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| Fonte: Google imagens |
Hoje vou falar sobre bengala.
Não sobre aquela bengala que serve para o nosso apoio quando, por qualquer
motivo, temos alguma dificuldade na locomoção. Essa é muito bem-vinda quando
necessária, ajudando até a compor o visual das mulheres, com diversas opções,
tais como as pintadas à mão, com apliques ou outros enfeites. Para os homens,
propiciam um visual mais nobre com suas opções de cana da Índia, torneada ou
com cabo de metal.
Não, eu quero falar sobre o
uso na doença, qualquer que seja ela, como bengala psicológica por parte do
paciente nas mais diversas situações. É lógico que eu fale principalmente
sobre o paciente de Esclerose Múltipla, já que é a doença que tenho. Ressalto,
entretanto, que esse comportamento é normal em todas as doenças graves ou crônicas.
Lógico que eu estou falando
porque já usei a minha EM muitas vezes como bengala, fosse para não fazer algo
ou ir a algum lugar que simplesmente eu não queria, pois ao invés de argumentar usava a doença como desculpa. Olha, estou com a mão dormente, não vai dar para
ajudar a fazer o almoço, o café, os enfeites da festa. Queria muito ir até a
casa de fulano, mas com esse calor, não vou aguentar.
Eu hoje, após trinta e tantos de
EM, fico até meio envergonhado de ter usado tais recursos, porém no início da doença, como nem mesmo eu havia aceitado que estava com uma patologia incurável,
por diversas vezes utilizei-me dela como bengala. Fui evoluindo como paciente
e também como ser humano e passei a entender que na verdade eu deveria
continuar a ter minha própria opinião e fazer valer os meus pontos de vista.
Como seria se utilizar da
doença como bengala? Seria na verdade dar desculpas para evitarmos até mesmo
confrontos com familiares, amigos e pessoas de nosso círculo de conhecidos que
não tenham a compreensão do que seja nossa doença e, então, aproveitamos para
valorizar os aspectos que são mais conhecidos dela, tais como amortecimentos,
visão dupla, paralisia de membro em alguns casos, dores e a rainha de todos os
sintomas, a tontura.
Outros dois aspectos também muito explorados pelos pacientes são, na verdade, um embasado até mesmo em estudos já
realizados e o outro, embora aconteça com alguns pacientes, tem muito mais a
ver com as confusões geradas pelo nome da nossa doença, esclerose. O primeiro
aspecto, aquele que tem embasamento científico, é o do impacto emocional nos
pacientes de esclerose múltipla que pode levar ao desencadeamento de um surto
e, quando não, fazem com que haja uma piora no quadro geral do paciente.
O segundo aspecto, aquele que
pode ocorrer com algumas pessoas e que é muito mais ligado ao nome da doença, esclerose,
do que propriamente a ocorrência do fato, seria a perda de memória. Esse
sintoma está muito mais relacionado à titulação que dão para nossa doença,
dizendo que a pessoa está esclerosada, isso quando não dizem que a pessoa perdeu
sua capacidade de raciocínio, lembrando que é um dos piores relacionamentos que
fazem sobre a doença e que, infelizmente, alguns de nossos pacientes utilizam-se
desta forma, a perda de memória, como bengala.
Enfim, temos que realmente
passar para as pessoas que nos rodeiam a realidade dos nossos sintomas e de
nossas necessidades, sem aumentar ou diminuir o que esteja sentindo, somente
assim iremos desenvolver uma forma de confiança, pois as pessoas terão certeza das
nossas necessidades e saberão que se estamos pedindo ajuda é porque realmente
necessitamos, sem estarmos utilizando a nossa doença para obter qualquer
vantagem.
Um bom ano novo para todos e lembrem-se
que este ano será 10 (2+0+1+7)!
Wilson Gomiero
Ativista social
Wilson Gomiero foi o
primeiro presidente do Grupo do Alto Tietê de Esclerose Múltipla (Gatem),
entidade oficializada em 2002, que contava com doze pacientes. Em 2004, com 28
pacientes, conseguiu do governo estadual uma sala para ser usada como sede e
para atendimento de pacientes. Conquistou parcerias com laboratórios
fabricantes de medicamentos. Em 2005, a Prefeitura de Mogi das Cruzes
possibilitou a locação de uma residência para a sede do Gatem. Em 2006, atendia
64 pacientes na nova sede. O Gatem passou a promover anualmente um simpósio
para estudantes e profissionais das áreas de fisioterapia, psicologia e
neurologia com o objetivo de informar e conscientizar sobre a esclerose
múltipla e outras doenças raras do sistema nervoso central.
Foi presidente do Conselho
Municipal dos Assuntos da Pessoa com Deficiência de Mogi das Cruzes (2002 a
2006); presidente da Federação Brasileira de Associações Civis de Portadores de
Esclerose Múltipla (Febrapem) (2008-2011); integrante da Comissão Organizadora
da II Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência; coautor do
Manual para Criação de Conselhos Municipais, lançado pela Secretaria de
Direitos Humanos da Presidência da República; membro da Comissão de Orçamento e
Finanças do CONADE (2013-2014). É membro do Grupo de Trabalho para Elaboração
de Políticas para Atendimento a Doenças Raras (desde 2011), membro da Comissão
de Implementação das Políticas para Habilitação e Reabilitação da Pessoa com
Deficiência e conselheiro do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com
Deficiência (Conade), em Brasília, como representante de todos os Conselhos
Municipais do Brasil.
Ativista e defensor dos
direitos das pessoas com deficiência, especialmente dos portadores de esclerose
múltipla e de doenças raras, Gomiero atua no grupo de trabalho do Ministério da
Saúde, que produziu pela primeira vez na história do Sistema Único de Saúde
(SUS), uma Política Nacional de Cuidados à Saúde para Pessoas com Doenças Raras
e, também, no Plano de Ação para Saúde das Pessoas com Deficiência (2014/2021)
da Organização Mundial de Saúde (OMS). Conselheiro
Fiscal da ABCEM.

Sr Wilson, muito bom teu texto, muito real, faz com que pensemos a cerca dá questão, ótimo!
ResponderExcluirSr. Wilson, sou presidente do Instituto ProbEM - em prol dos portadores de Esclerose Múltipla. Atuamos em Curitiba e região metropolitana.
ResponderExcluirNeste sábado, 19/08, como parte dos eventos do Agosto Laranja faremos uma Roda da Leitura, onde lemos e comentamos um texto relacionado à EM.
Pedimos sua autorização para usarmos seu texto: Bengala, pois entendemos como muito oportunas e necessárias as informações contidas nele.
Desde já agradeço sua atenção.
Abraços,
Silvana Carmo
Olá Silvana!
ExcluirO Sr. Wilson autorizou o uso da postagem no evento que irão promover.
Muito obrigada pelo contato!
Abraços!