Nem sempre a vida é boa
conosco.
Assim como os pais não podem
apenas dizer sim aos filhos, o universo também se encarrega de fechar algumas
portas na nossa cara, dizer uns nãos bem sonoros e, muitas vezes, nos dar uma
bagagem que julgamos bem além das nossas forças carregar.
Eu confesso que por muito
tempo culpei a tudo e a todos, mesmo que na maioria das vezes
inconscientemente, pelo que aconteceu ou deixou de acontecer comigo. Eu,
silenciosamente, atribui aos outros a responsabilidade por ter me colocado à
margem da minha própria vida e permitido me quebrar em mil pedaços para deixar
os outros de pé, ilesos, sem nem mesmo trincos ou rachaduras.
Eu culpei a tudo e a todos
sem perceber que a culpa era minha, apenas minha, porque as pessoas só fazem
conosco aquilo que permitimos.
A Esclerose Múltipla, assim
como outras doenças autoimunes, configura-se no ataque do meu corpo a mim mesma
e eu nunca tinha parado para refletir no porquê disso acontecer. As pesquisas
até hoje esbarram apenas em teorias. Não existe nada que esclareça de forma
elucidativa e inequívoca o que faz com que o que devia nos defender de invasões
externas - o nosso sistema imunológico - como que num ataque de fúria, passa a
entender que elementos essenciais ao perfeito funcionamento do nosso organismo
sejam inimigos impiedosos e se empenha em combatê-los.
Então, fazendo uma analogia
entre a patologia autoimune e os ataques que permiti acontecer às minhas
emoções, os aviltamentos aos meus sentimentos e a voluntariedade, mesmo que sem
perceber, com que abri as portas da minha existência para que fizessem bagunças
imensuráveis, eu percebo o quanto fui responsável por ter deixado de viver alguns
sonhos e por ter me deixado estraçalhar em pedaços, de tal forma, que tive de
me remendar inteira.
Porém, se eu não posso
apertar um botão de pausa e impedir que novos ataques ao meu sistema nervoso
central aconteça, eu tenho o poder de mudar minha forma de enxergar o mundo e
parar de atribuir a responsabilidade pelo que fiz ou pelo que faço comigo mesma
aos outros. Eu sou a única responsável pela minha vida e pela minha própria
felicidade. Apenas eu, e tão somente eu, posso escolher entre me fazer de
vítima ou assumir as rédeas da minha vida, deixando de permitir que pessoas me
estilhacem com suas atitudes, pois apesar de não ser inquebrável, posso me
tornar bem flexível, se eu quiser.
Eu sei que não é fácil, pois
teorizar é bem mais simples do que colocar em prática, uma vez que têm dias que
a bagagem fica tão pesada que não encontramos energia nem ao menos para pensar.
No entanto, eu sei também que esses dias passam, que a inércia forçada
provocada pela minha companheira de vida dá uma trégua e me permite sair do
estado de repouso e partir para o movimento, retomando a responsabilidade de me
permitir viver com alegria, buscando ser o melhor que eu puder ser para mim
mesma.
Eu tenho Esclerose Múltipla,
tenho sonhos perdidos, tenho cicatrizes profundas na alma, mas preciso enxergar
que isso não é culpa de ninguém, não é culpa da vida, nem do universo e, mesmo
as responsabilidades que posso atribuir a mim mesma, não são motivos para que
eu me autoflagele, pois, muito mais que perdoar aos outros, eu preciso perdoar
a mim mesma a fim de me permitir ser o suficientemente forte para seguir
vivendo desprendida das culpas que, embora as assuma, não preciso carregar pela
vida inteira.
Perdoar-se exige uma
profunda introspecção, mas eu sempre mergulhei nas profundezas.
Bete Tezine
"A arte, em todas as suas
formas de expressão, tem o poder de mudar os rumos de uma história que desde o
começo estava fadada ao fracasso..."
(Bete Tezine)
Nascida em Santo André, SP, 49
anos, advogada, artista plástica, professora universitária de Artes Plásticas,
mãe de 2 filhos (1 adulto e 1 adolescente), diagnosticada com Esclerose
Múltipla em fevereiro de 2012 e atual presidente da ABCEM.


Bem isso amiga! Nos conhecemos tao profundamente! Estou na busca por retomar redeas! Morro de saudade de voce! Se cuida e seja feliz!
ResponderExcluirO quanto disso sou eu. Obrigada. Bjus
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