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| Foto: Ricardo Giamattey |
Minha vida sempre foi
atribulada: adolescente questionadora, uma escolha profissional que
infelizmente, neste país, me trouxe até agora poucas opções de satisfação
profissional e conforto material, um relacionamento pessoal do qual surgiu meu
tesouro Lucas, mas que depois de consumir minha autoestima e amor próprios por
muitos e muitos anos, agora acabou... e como condição de contorno, a EM, e tudo
que ela representa na minha vida!
Recentemente, conheci uma
pessoa que hoje é meu namorado, que mesmo antes do primeiro beijo já
sabia da EM e nunca pareceu se importar com isso. Não foram poucas as
vezes em que tentei afastá-lo com frases do tipo "tá preparado para
empurrar minha cadeira de rodas?" ou "você nunca vai saber como me
sinto, então não me julgue". Óbvio que brigas acontecem, algumas
desagradáveis, mas estamos juntos por um sentimento que ainda não tem muitas
palavras e explicações associadas...
Uma das coisas que ele me fala
é que eu coloco a EM no centro da minha vida. Que eu monto minha vida no
"dado que eu tenho EM...", enquanto eu devia pensar "apesar de eu
ter EM...". Toda medalha tem dois lados, mas sempre tem aquele mais
bonito, que chama mais atenção, e que escolhemos colocar como o lado visível para quem quiser observar... inclusive nós
mesmos...
E nesse pouco, porém intenso
tempo em que estamos juntos, vejam só, já tenho vários apelidos! Ele me chama de
"maluquinha predileta". Eu nunca me importei, porque me acho
meio maluquinha mesmo... "Maluco" é uma palavra preconceituosa, mas
na verdade ela, para nós esclerosados, nada mais deveria significar que
assumimos riscos em nossas vidas que podem ser anti-naturais, mas que dada a
fragilidade da existência humana, podem nos aproximar da vida que vale a pena
ser vivida. Não há problemas em "esticar a corda" desde que
possamos responder por nossos atos.
Também, meu nível de estresse
no dia a dia e meu hábito de pensar pouco antes de falar me renderam outro
apelido: "Lili Alfinete". Na verdade, é impressionante como
podemos fazer a vida sorrir para nós de volta se sorrirmos para ela.
Palavra dita não volta pra boca e banalizar o uso da palavra desculpa não
ajuda em nada.
A EM nos apavora pela sua
capacidade de nos tirar do prumo, pois até a unha encravada pode ser vista como
alguma coisa supostamente grave que começou a dar errado no nosso
organismo. Mas, se temos passe livre em diversas coisas práticas da nossa
vida (bem, eu não pago ônibus), essa mesma liberdade deve ser usada para a
felicidade de quem amamos e não para que "tenhamos o direito" de
falar e fazer o que quisermos...
Por fim, a tal da ansiedade, a
doença que tanto incapacita o ser humano, que na EM é potencializada pela ainda
maior imprevisibilidade do comportamento do nosso organismo. Infelizmente, por uma dessas coincidências da vida, controlar a ansiedade com
remédios, para mim, não é uma opção... (só um dos meus rins funciona bem) então
eu choro, Choro, CHORO! Tenho raiva, tenho medo, e talvez dê menos valor às
pequenas alegrias do que deveria, pois os "monstros adormecidos" da dor
e da incapacitação podem acordar a qualquer momento e, por isso, devoto a essa
"gestão do medo" muita energia, que acaba faltando para outras
coisas. Ou, como diz meu namorado, sou que nem o esquilinho do filme
"Deu a louca na chapeuzinho", que de tão ansiosa e, às vezes, confusa,
querendo estar sempre a frente do meu (escasso) tempo, somente me sinto
compreendida por quem me ama (no caso do filme, pasmem: é o Lobo Mau...).
Finalmente, estou na fase de
transição da minha vida pessoal, na qual toda a rotina está sendo bastante
modificada e para a EM, muitas vezes, mudanças significam "ah não, algo
mais pifando no meu organismo".
Não precisa ser assim... Hoje
alguém tenta me mostrar que temos nossa vida por empréstimo Divino e que a
única forma de ter sucesso nessa empreitada é tendo o controle dela, apesar
de...
Pois é! APESAR DE parecer, não
fui eu que escrevi essas palavras e apesar dele não ter me pedido para dar-lhe
créditos (dizendo que o texto era meu, dado que eu era/sou a musa), foi meu
namorado quem escreveu esses parágrafos com um nível de sensibilidade quase
assustador (se eu fosse normal, acho que teria saído correndo).
Fui, então, obrigada a aceitar
que algumas pessoas especiais têm muita capacidade de entender como nós
esclerosados nos sentimos, ainda que não sintam também. E nesse ponto vale
pensar que se por um lado elas não podem sentir por nós, por outro, podem nos
AJUDAR a carregar as "malas pesadas e sem rodinhas"!
O que venho percebendo, a
duras penas (e graças à paciência e resiliência quase infinitas dele), em meio
as já mencionadas brigas, é que não posso querer um "carregador automático
de malas", ou uma "muleta que ande por mim"! Isso jamais daria
certo (como não deu nos últimos 10 anos e muito por culpa minha). Ninguém, por
mais que me ame, será capaz de viver minha vida plenamente e melhor do que eu
mesma. JUSTAMENTE PORQUE ELA É MINHA! E temos obrigação moral de sermos a
melhor versão de nós mesmos porque a vida é muito curta para se apequenar e
pelo simples fato de que: somente NÓS podemos fazê-lo!
Em relação à mudança de
rotina, preciso dizer que foi quase como a "bomba de Hiroshima"! Esse
ano troquei meu filho de escola, o tirei do integral, me separei recentemente, tive brigas exorbitantes com minha família, "pequenas"
questões no trabalho (como estar com salários atrasados e parcelados que nem
casas Bahia, rsrs) etc! E a vida dele também não anda nada fácil!
E, nesse ponto, vale destacar o
fato de que ainda que haja um ANJO (porque posso ser "esquilinho",
mas ele JAMAIS será "lobo mau") me apoiando e sendo a grande força
impulsionadora que me tirou da inércia, a continuidade do movimento e novos
passos vêm sendo dados por mim mesma e, por vezes, SOZINHA! Hoje, mãe solteira
(namorando), esclerosada e vivendo um dia de cada vez!
Tentando olhar o queijo EM vez
dos buracos, o copo meio cheio, o mundo colorido! Tentando boiar calmamente, EM
vez de me afogar! Tentando viver, APESAR DE TUDO, com a certeza e a fé (aquela
fé que é só minha e poucos entendem) de que a vida dará certo, desde que eu
siga SEMPRE motivada no meu caminho (com foco no prêmio), dando um passo de
cada vez, pois direção e sentido importam muito mais do que velocidade!
"Porque metade de mim é
amor, e a outra metade também!" (Oswaldo Montenegro), as duas metades são
dele e viver "ao seu lado" (no melhor estilo Eduardo e Mônica) é uma
dádiva tão grande que já julguei não merecer! Algo como um encontro de almas,
que mesmo que não seja pra SEMPRE (pois sempre é muito tempo), terá sido eterno
enquanto "durar"!
E fica a pergunta: se eu
posso, por que não cada um dos que estão lendo? "YES, WE CAN!"
Porque não se trata apenas da
forma como os outros nos veem, mas da forma que nos enxergamos! Não se trata
apenas de namoros, mas de todas as relações! Se trata, sobretudo, de retomarmos
as rédeas das nossas vidas, muitas vezes perdidas para a EM (ou até para outras
coisas mais bobas...).
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| Foto: Ricardo Giamattey |
ANJO, DESCULPA, MAS EU TE AMO
E MUITO... (aposto que só você irá entender!). Porque você é o melhor reverso
da medalha do meu coração!
Liane Moreira
Bióloga
Possui Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro (2007) e graduação em Ciências Biológicas (modalidade
Ecologia) pela mesma universidade (2009). Possui mestrado em educação pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e mestrado em Biodiversidade e
Unidades de Conservação pela Escola Nacional de Botânica Tropical (JBRJ)
(2015).É servidora pública do estado do RJ, atuando como bióloga na Diretoria
de Biodiversidade e Áreas Protegidas no Instituto Estadual do Ambiente
(Inea-RJ), desde de 2010.É mulher, mãe, esposa, diagnosticada com esclerose
múltipla desde dezembro de 2007 (na época, aos 21 anos) e autora do blog
“Liemmim”, desde novembro de 2015, quando a esclerose resolveu acordar. O blog
destina-se a mostrar os desafios da autora no cotidiano com esclerose: medos,
anseios, hobbies, frustrações, sonhos e muito mais.Leonina, teimosa, humana,
lotada de defeitos e amante da vida, vem buscando se conhecer dia após dia,
tentando tornar a esclerose um terreno fértil de possibilidades para além das
barreiras que a acompanham, através da reflexão profunda, busca, mudança de
percepções e “escritoterapia”.



Achei muito interessante sua história, e me identifico com ela... recebi o diagnóstico aos 15 anos e desde então, me sinto meio perdida com a vida sabe. Fazendo tudo pra provar pra todos que eu, sou capaz. Mas as vezes me pergunto se realmente sou capaz! Junto a esclerose apareceram comorbidades, da depressão e ansiedade, que estão me consumindo. Eu escrevo como resposta ao seu post, porque estou na graduação de psicologia, último ano... e não estou me sentindo capaz de suportar essa carga. Acho que o meu depoimento é mais um desabafo, que qualquer outra coisa.
ResponderExcluirvocê pode se quiser!!! Eu terminei 2 graduações e fiz 2 mestrados pós-diagnóstico.
ExcluirNão DESISTA! Não deixe ela te dominar!! peça tempo aos professores e à instituição... mas, jamais desista!! By the way... meu namoro ACABOU. Mas, os aprendizados e reflexões, seguem.
Uauu! me emocionei de verdade com sua narração... parabéns!
ResponderExcluirOque você disse , até me me fez lembrar um trecho de uma canção que remete bem oque você transmitiu ...
"Não é sobre chegar no topo do
Saber que venceu
É sobre escalar e sentir
Que o caminho te fortaleceu."(trecho da música Trem bala , de Luan Santana e Ana Vilela)
👏👏👏👏
Bem por aí... me fortalecendo dia a dia... Saí do time de blogueiros da ABCEM, mas sigo na associação. By the way... meu namoro também ACABOU. Mas, os aprendizados e reflexões, seguem. A VIDA SEGUE! O SHOW PRECISA CONTINUAR.
Excluir🙋isso mesmo , o show continua sempre Abraços 😘
ResponderExcluirsempre, Sempre e SEMPRE!
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