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| Fonte: Figura fonte: pinterest.com |
A
Esclerose Múltipla (EM) exige bastante da pessoa diagnosticada, exige
paciência, atenção, cuidados, pausas, exige desabafos para que o sujeito se
fortaleça. Ser diagnosticado com EM pode ser um choque, realmente, e este
choque pode levar à negação. Por vezes, a pessoa diagnosticada não aceita ter a
EM, nega-a, podendo ser isto motivo de
atraso ao tratamento. Mas o que exatamente influencia nessa adesão, em cada
pessoa? Pontuaria aqui pelo menos três motivadores possíveis para uma baixa adesão ao tratamento
da EM, mas me ative a apenas um: o medo humano à cronicidade.
Cronus, o deus grego do tempo, filho da terra e
do céu, segundo a mitologia grega. Este deus para os gregos era uma figura que
gerava medo, existiu tentando salvar seu próprio poder e existência, a custa da
vida dos filhos. Porém é derrotado. Ao
derrotar Cronus, Zeus conquista a imortalidade para todos os deuses.
Vivemos em uma busca pela imortalidade diária. Esta busca leva-nos à desejar prazeres
intensos, a querer sentir-se bem constante, a uma tentativa de viver uma
felicidade plena e sem fim. Veja a
alimentação humana, todas as vezes que profissionais de saúde tentam alterar a
forma de comer de uma pessoa, drasticamente, há uma chance grande desta
alteração não ser aceita. Há estudos que apontam para uma adesão a longo prazo
a determinadas mudanças de menos de 5% das pessoas em atendimento. A ideia de
permanência em algo incômodo nos é, logicamente, assustadora. Mudemos a tática,
então. Aquelas pessoas que convivem com
a EM há anos, saberão concordar de que com o passar do tempo, o incômodo não
necessariamente passa, mas a forma de enxergá-lo torna-se diferente. Não é se
acostumar, mas é aceitar, no caso da EM. E veja, aceitar não é se acomodar, tão
pouco desistir, pelo contrário, é persistir. É persistir no próprio bem-estar;
é persistir na autocompreensão; é persistir na conscientização de outros seres
humanos, visto que somos todos vítimas de um sistema político destrutivamente produtivo, em que o
parar não costuma ser aceito. E a EM exige parar. Aceitar, então, é parar. É
caminhar após parar, é se sentir livre, porque cada parada e caminhada foi por
persistência e desejo seu também. Aceitar é saber que você continua a mesma Vanessa,
e o mesmo João de antes. Aceitamos tantas coisas, por que não nos aceitar? Aceitar
é saber que, sim, vai ser difícil, mas que você não precisa lutar contra si, se
apenas permitir sentir-se triste, feliz, com raiva, intercalando sentimentos -
isto também é constância.
Constância está na resistência do permitir-se, do
sentir-se forte e não forte, do aceitar a si. Se o medo da cronicidade é o medo do
constante, então que a sua constância torne o tempo aceitável.
Fernanda Sabatini
Nutricionista
Nutricionista graduada pela Universidade Federal de São Paulo. Membro do Grupo de pesquisa em alimentação e cultura (GPAC) e mestranda em Nutrição em saúde pública, na USP - Universidade de São Paulo.


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