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terça-feira, 29 de agosto de 2017

O que influencia na sua adesão ao tratamento?


Fonte: Figura fonte: pinterest.com
A Esclerose Múltipla (EM) exige bastante da pessoa diagnosticada, exige paciência, atenção, cuidados, pausas, exige desabafos para que o sujeito se fortaleça. Ser diagnosticado com EM pode ser um choque, realmente, e este choque pode levar à negação. Por vezes, a pessoa diagnosticada não aceita ter a EM, nega-a, podendo ser isto  motivo de atraso ao tratamento. Mas o que exatamente influencia nessa adesão, em cada pessoa? Pontuaria aqui pelo menos três motivadores  possíveis para uma baixa adesão ao tratamento da EM, mas me ative a apenas um: o medo humano à cronicidade.

Cronus, o deus grego do tempo, filho da terra e do céu, segundo a mitologia grega. Este deus para os gregos era uma figura que gerava medo, existiu tentando salvar seu próprio poder e existência, a custa da vida dos filhos. Porém é derrotado.  Ao derrotar Cronus, Zeus conquista a imortalidade para todos os deuses.

Vivemos em uma busca pela imortalidade diária.  Esta busca leva-nos à desejar prazeres intensos, a querer sentir-se bem constante, a uma tentativa de viver uma felicidade plena e sem fim.  Veja a alimentação humana, todas as vezes que profissionais de saúde tentam alterar a forma de comer de uma pessoa, drasticamente, há uma chance grande desta alteração não ser aceita. Há estudos que apontam para uma adesão a longo prazo a determinadas mudanças de menos de 5% das pessoas em atendimento. A ideia de permanência em algo incômodo nos é, logicamente, assustadora. Mudemos a tática, então. Aquelas pessoas que convivem com a EM há anos, saberão concordar de que com o passar do tempo, o incômodo não necessariamente passa, mas a forma de enxergá-lo torna-se diferente. Não é se acostumar, mas é aceitar, no caso da EM. E veja, aceitar não é se acomodar, tão pouco desistir, pelo contrário, é persistir. É persistir no próprio bem-estar; é persistir na autocompreensão; é persistir na conscientização de outros seres humanos, visto que somos todos vítimas de um sistema político destrutivamente produtivo, em que o parar não costuma ser aceito. E a EM exige parar. Aceitar, então, é parar. É caminhar após parar, é se sentir livre, porque cada parada e caminhada foi por persistência e desejo seu também. Aceitar é saber que você continua a mesma Vanessa, e o mesmo João de antes. Aceitamos tantas coisas, por que não nos aceitar? Aceitar é saber que, sim, vai ser difícil, mas que você não precisa lutar contra si, se apenas permitir sentir-se triste, feliz, com raiva, intercalando sentimentos - isto também é constância.   
         
Constância está na resistência do permitir-se, do sentir-se forte e não forte, do aceitar a si. Se o medo da cronicidade é o medo do constante, então que a sua constância torne o tempo aceitável.

Fernanda Sabatini
Nutricionista






Nutricionista graduada pela Universidade Federal de São Paulo. Membro do Grupo de pesquisa em alimentação e cultura (GPAC) e mestranda em Nutrição em saúde pública, na USP - Universidade de São Paulo.



terça-feira, 23 de agosto de 2016

Adesão aos tratamentos


Fonte: Google imagens


A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece a adesão ao tratamento de doenças crônicas, como um dos fatores que mais contribui para redução de eficácia do tratamento. Esclerose múltipla não é uma exceção.

Aderir a um tratamento significa seguir uma série de orientações que vão desde comparecer às consultas agendadas, até assumir condutas preventivas, mudar estilo de vida, se autocuidar, seguir a prescrição dos medicamentos (via de administração, dose, frequência, rodízios de aplicação) e de terapias reabilitacionais; porém vários são os fatores influenciadores:

1 - Medida de Eficácia: "Eu estou bem, não preciso mais tomar este remédio" ou "não vejo melhora, continuo com as mesmas dificuldades, por que devo continuar?".

2 - Diferenças entre tratamentos: "João toma comprimidos", "Francisca, injeções semanais", "Paula, injeções diárias" e eu "uma vez por mês????". "Estou tão bem e tenho que usar injeções diárias?". "Tenho um conhecido que está pior que só usa um comprimidinho".

3 - Dinâmica de vida: "Os tratamentos limitam minha rotina." " No dia seguinte não sinto-me bem para fazer nada".

4 - Sociais: "Meus pai dizem que este tratamento não me faz bem." " Um amigo diz que um conhecido utiliza uma terapia alternativa e está muito bem. " " Vi uma reportagem...".

Esclerose Múltipla é uma doença de múltiplas faces sintomáticas e de gravidade. A terapêutica não pode ser engessada e deve ser adaptada à cada situação clínica, à particularidade de cada ser. 

Quando se escolhe uma determinada abordagem terapêutica se analisa o que se espera desta proposta, nesta situação, para este indivíduo em especial; o que quero dizer, é indicado? Ele pode utilizar? Não há contraindicações? 

A forma de apresentação: injetável, comprimido... não tem relação com a gravidade da doença e sim com a indicação terapêutica naquele momento. Querer não significa poder, cada caso deve ser analisado em sua particularidade evolutiva.

Hoje sabe-se que quanto mais precoce o diagnóstico, o início e a manutenção adequada (adesividade) dos modificadores da evolução da doença, há uma minimização na atividade inflamatória, na quantidade e gravidade dos surtos e no acúmulo de cicatrizes no sistema nervoso central e, consequentemente, a diminuição do acúmulo de incapacitações. É o que esperamos do tratamento. Se há sequelas físicas a medicação não vai resolver (esta é a finalidade da neurorreabilitação: fisioterapia, terapia ocupacional, fonoterapia, entre outros); Está sem surto? Ótimo, a medicação está cumprindo seu papel!

Uma determinada droga, para chegar ao mercado, passa por várias fases de análise de pesquisa científica, durante as quais se avaliam eficácia, dose, frequência entre doses, efeitos colaterais, segurança em número cada vez maior de pessoas, para haver  a maior margem de segurança possível; por isto uma determinada droga só é eficaz quando utilizada na forma padronizada e estudada pelo fabricante pesquisador. 

O principal em qualquer tratamento é o conhecimento, se eduque, discuta com a equipe de saúde que o acompanha, tire dúvidas; mas quem deverá assumir a responsabilidades de seu tratamento é você. Não é ser paciente na situação, é ser ativo.

O conhecimento diminui a ansiedade e te faz um melhor gerenciador da situação, dos prós e contra do seu tratamento. Uma percepção clara, objetiva do que se pode esperar não frusta e diminui a chance de abandono.


Liliana Russo
Neurologista