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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Musculação: eficiência e segurança


Fonte: Google imagens

O treinamento resistido ou a prática de exercícios com pesos recebe o nome de musculação, devido aos efeitos positivos para o aumento da massa muscular.

Quando o objetivo da musculação é reabilitar um indivíduo, seja por uma patologia, seja por uma deficiência ou acidente, pode ser chamada de Musculação Terapêutica.

A resistência de um movimento é obtida por meio de pesos livres ou aparelhos. Nos exercícios de pesos livres são utilizados elásticos, barras, anilhas ou o próprio peso corporal. Quanto ao uso de aparelhos, os mais conhecidos são os “tijolinhos”, aqueles equipamentos que vemos nas academias. Além desses, temos os de sistema hidráulico, eletromagnético, molas, freios, alavancas, entre outros. 

Tá?! Diante de um assunto tão “pesado”... Por que a musculação é indicada para pessoas frágeis, idosas, com deficiências ou para aquelas que se encontram em um processo de reabilitação??? Como a musculação pode ser terapêutica???

A musculação é indicada devido sua EFICIÊNCIA e SEGURANÇA.

Para que um exercício seja adequado para fins terapêuticos, tanto para doenças musculoesqueléticas como para doenças sistêmicas e fragilidade, as necessidades em eficiência e segurança precisam ser atendidas. No aspecto da eficiência a musculação é o tipo de exercício que apresenta o melhor conjunto de efeitos:

Força Com músculos mais fortes aumenta a estabilidade das articulações, alivia dores e a mobilidade se torna confortável. Além disso, os esforços da vida diária são realizados com menor recrutamento de fibras musculares e, consequentemente, menores elevações da frequência cardíaca e da pressão arterial, diminuindo a intensidade dos esforços. A força muscular também é importante para caminhar porque permite que essa atividade seja aeróbia. Pessoas fracas caminham recrutando muitas fibras e o esforço passa a ser anaeróbio, o que leva à fadiga precoce. O limiar anaeróbio corresponde cerca de 30 a 40% das fibras em atividade.

Potência A força aplicada rapidamente recebe o nome de potência. Movimentos rápidos não podem ser terapêuticos porque são agressivos para articulações fragilizadas. No entanto, os movimentos lentos e moderados, além de aumentar a força aumentam também a potência, e com isso é possível recuperar o equilíbrio e evitar quedas diante de situações adversas.

Resistência A capacidade de prolongar esforços recebe o nome de resistência. É a capacidade que nos ajuda em atividades contínuas como correr, pedalar ou nadar. Muito estimulada na musculação por meio das séries, cargas e repetições. Porém, não empregada nos exercícios terapêuticos.

Coordenação Os exercícios de musculação são eficientes para a coordenação por serem lentos e moderados, realizados nas maiores amplitudes possíveis, respeitando as limitações e por utilizarem os movimentos funcionais da vida diária, como empurrar, puxar e agachar. Mesmo no caso de doenças neurológicas com hipertonia, a musculação tem se mostrado o mais eficiente estímulo à funcionalidade geral, sem piorar a espasticidade ou rigidez.

Flexibilidade A falta de movimento diminui as amplitudes articulares, podendo prejudicar a funcionalidade para a vida diária. Para aumentar a flexibilidade das articulações os exercícios precisam forçar os limites das amplitudes, sempre respeitando as limitações por deformidade anatômica, patológica ou dores. Na ausência de dores ou deformidades, a musculação aumenta a flexibilidade em níveis bem superiores aos necessários.

Alongamento O alongamento máximo utilizado na preparação esportiva tem o inconveniente de piorar a estabilidade, favorecendo lesões. Nas doenças articulares o alongamento máximo provoca dores imediatas e piora dores cinéticas por agravar a instabilidade. Por outro lado, o alongamento muscular é importante para aliviar dores de diversas origens. A musculação estimula o alongamento, em pequenos graus, devido os efeitos da contração excêntrica resistida sobre a elasticidade e proliferação do tecido conjuntivo do músculoesquelético.

Massa Muscular O aumento da massa muscular tem fundamental importância na saúde, por: aumentar o metabolismo basal; modificar o perfil hormonal para o anabolismo (construção de tecidos); favorecer o controle da glicose sanguínea; reduzir a gordura corporal; proteger as articulações devido ao aumento paralelo da força.

Massa Óssea A perda de massa óssea ocorre no envelhecimento, no sedentarismo, nas imobilizações, em determinadas doenças crônicas, na má nutrição e no uso contínuo de alguns medicamentos. Os exercícios estimulam o aumento da massa óssea quando comprimem o esqueleto. Uma das formas de compressão óssea é o impacto, que é a desaceleração brusca do corpo em movimento, como nos saltos. O impacto é também um grande fator de lesão para as articulações. A forma segura de compressão dos ossos é o suporte de pesos, como o peso corporal ou os pesos utilizados em exercícios.

Massa Adiposa A redução da gordura corporal é importante para melhorar condições basais para a saúde, como: diminuir a resistência à insulina; melhorar o perfil lipídico do sangue; reduzir a pressão arterial; favorecer um bom perfil hormonal; aliviar o trabalho cardíaco; e diminuir a sobrecarga nos esforços. O aumento da massa muscular tem papel importante na redução de gordura, pois aumenta o metabolismo basal e melhora o perfil hormonal adequado.

A segurança é uma qualidade fundamental para exercícios terapêuticos, visto que a sua aplicação ocorre em situações de saúde comprometida e fragilidade. A musculação é segura, tanto para o sistema cardiovascular quanto para o sistema musculoesquelético. No aspecto articular a segurança decorre do controle e adequação individual de todos os fatores de sobrecarga para o aparelho locomotor: os aparelhos colocam o corpo nas posições adequadas e confortáveis; as amplitudes dos movimentos são definidas para respeitar dores e limitações; a velocidade dos movimentos é leve à moderada, sem acelerações e desacelerações bruscas; as cargas são definidas de acordo com a força de cada grupo muscular; as repetições habituais são confortáveis e podem ser muita baixas na situação de fraqueza acentuada; o número de movimentos totais é pequeno e a duração das sessões é curta, assim como as suas frequências semanais.

Quanto à segurança cardiológica, a musculação adapta o grau de esforço de modo individual; a frequência cardíaca não aumenta significativamente e a pressão diastólica um pouco mais alta garante maior oferta de sangue para o miocárdio. A incidência de arritmia ou isquemia na musculação é baixa, mesmo em cardiopatas. A dispneia em cardiopatas e pneumopatas é facilmente controladas com baixas repetições e intervalos maiores entre séries.

A musculação é uma atividade muito segura e confortável, sendo o exercício eficiente para melhorar a qualidade de vida de qualquer indivíduo e promover saúde geral.

Eliciane Leite
Educadora Física
CREF 076979-G/SP

Referência 

SANTAREM, J. M. Musculação em todas as idades. São Paulo: Manole, 2012



Professora Técnica de Esportes no SESI-SP, CAT Theobaldo de Nigris – Santo André.  
Especialista em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido, na Saúde, na Doença e no Envelhecimento – Universidade de São Paulo (2011). 
Bacharel em Educação Física – Faculdades Integradas de Santo André (2009).


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Esclerose múltipla e treinamento resistido


Fonte: https://goo.gl/XgAFHB

As pessoas com Esclerose Múltipla (EM), por muito tempo, foram conduzidas a reduzir o nível de atividade física. O objetivo desta orientação era poupar energia dos pacientes, evitar o aumento da temperatura corporal, controlar a fadiga e diminuir a exacerbação da doença. O sedentarismo, além de um grande risco para patologias cardíacas, aumenta os distúrbios da EM, como: espasticidade, ataxia, fraqueza muscular, falta de equilíbrio e fadiga. Assim a prescrição de exercícios resistidos funciona como uma estratégia terapêutica eficiente e segura para minimizar a perda da capacidade funcional (PORTO; RASO, 2007; FURTADO; TAVARES, 2005).

Em pacientes com EM ocorre a diminuição da força muscular, que está ligada às alterações do Sistema Nervoso Central (SNC), por conta da desmielinização das fibras nervosas, e ao desuso, por consequência do baixo nível de atividade física que reduz a ativação das fibras musculares de todos os tipos e de suas ações enzimáticas.

O déficit da força muscular causa grande impacto na locomoção e execução das atividades da vida diária (AVD), comprometendo o estilo de vida independente, isto porque a perda ocorre de maneira mais acentuada nos músculos de membros inferiores (MMII) prejudicando a deambulação. (FURTADO; TAVARES, 2007).

A indicação de exercícios físicos não era recomendada, pois acreditava-se que esta prática ao elevar a temperatura corporal poderia aumentar a fadiga e potencializar os sintomas da doença. A partir da década de 80, pesquisas realizadas demonstraram que a prática de exercícios físicos era eficaz e segura para portadores de EM. (FURTADO; TAVARES, 2005).

Com relação ao Treinamento Resistido (TR) é possível citar alguns estudos que mostraram resultados importantes nos pacientes com EM.

Com o objetivo de verificar a melhora na ativação neural com um treinamento de força máxima para portadores de EM, Fimland e cols. (2010) realizaram um estudo randomizado com uma amostra de 14 pacientes portadores de EM e forneceu evidências de que o treinamento de força máxima é eficaz para aumentar a ativação neuromuscular dos MMII, aliviando alguns dos sintomas em pacientes com ligeira à moderada deficiência devido a EM.

Apesar da realização de um programa de TR de curta duração, Debolt e McCubin (2004) puderam notar o impacto dos exercícios na execução das atividades da vida diária, como entrar e sair do carro e sentar e levantar de uma cadeira.

A capacidade funcional de indivíduos com EM é um fator importante, assim Gutierrez e cols. (2005) realizaram um estudo cujo objetivo era avaliar a cinemática da marcha através de um programa de exercícios contra resistência. Esta pesquisa teve duração de oito semanas e tendo como resultado um aumento significativo na força de MMII, consequentemente, melhora na marcha. Dessa forma, concluiu-se que o treinamento contra resistência pode ser eficaz no tratamento de pessoas com EM. White e cols. (2004) corroboram quando perceberam adaptações positivas com o TR e melhora significativa na capacidade funcional dos indivíduos com EM.

A maioria dos pacientes com EM podem exercitar-se seguramente, mesmo sabendo que tal prática promove o aumento da temperatura corporal. Desta forma, sugere-se algumas estratégias para controlar este sintoma: salas climatizadas, realização de exercícios no início da manhã ou no final da tarde, manutenção da hidratação durante a atividade física. (FURTADO; TAVARES, 2006).

Há também a técnica do resfriamento pré-exercício, onde é feita a imersão corporal até a cintura em água fria por 30 minutos. Esta estratégia é utilizada para minimizar os efeitos colaterais associados ao calor e otimizar o conforto físico durante o exercício. (FURTADO; TAVARES, 2005). 
  
Dessa forma, entende-se que o TR pode ser uma ótima ferramenta para busca da manutenção ou desenvolvimento da força muscular, tendo como foco principal minimizar as perdas da capacidade física decorrentes, tanto da EM, como do envelhecimento. Portanto, o desenvolvimento da força muscular é de suma importância para um estilo de vida ativo e autônomo (FURTADO; TAVARES, 2007).

REFERÊNCIAS

DEBOLT, L. S.; MCCUBBIN, J. A. The effect of home-based resistance exercise on balance, power and mobility in adults with multiple sclerosis. International Journal of Sports Medicine, Stuttgart, BW: THIEME, v. 85, n. 2, p. 290-297, feb. 2004.

FIMLAND, M. S. et al. Enhanced neural drive after maximal strength training in multiple sclerosis patients. European Journal of Applied Physiology, Frankfurt, HS: SPRINGER, v. 110, n.2, p. 435-443, sep. 2010.

FURTADO, O. L. P. C.; TAVARES, M. C. G. C. F. Esclerose múltipla e exercício físico. Acta Fisiátrica, São Paulo: HC/FMUSP, v. 12, n. 3, p. 100-106, dez. 2005.

______. Orientação de exercícios físicos para pessoas com esclerose múltipla. Revista Digital, Buenos Aires, v. 11, n. 99, ago. 2006. Disponível em: <http://www.efdeportes.com/efd99/esclero.htm>. Acesso em: 9 out 2011.

______. Proposta de exercícios resistidos para pessoas com esclerose múltipla: um estudo de caso. Acta Fisiátrica, São Paulo: HC/FMUSP, v. 14, n. 2, p. 111-116, jun. 2007.

GUTIERREZ, G. M. et al. Resistance training improves gait kinematics in persons with multiple sclerosis. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation, Philadelphia, PA: ELSEVIER, v. 86, n. 9, p. 1824-1829, sep. 2005.

PORTO, R. M.; RASO, V. A importância da atividade física para portadores de esclerose múltipla obesos. Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento, São Paulo: IBPEFEX, v. 1, n. 1, p. 80-89, jan./ fev. 2007.

WHITE, L. J. et al. Resistance training improves strength and functional capacity in persons with multiple sclerosis. Multiple Sclerosis Journal Online, Teller Road, CA: SAGE PUBLICATIONS, v. 6, n. 10, p. 668-674, dec. 2004.

Eliciane Leite 
Educadora Física 
CREF 076979-G/SP


Professora Técnica de Esportes no SESI-SP, CAT Theobaldo de Nigris – Santo André.  
Especialista em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido, na Saúde, na Doença e no Envelhecimento – Universidade de São Paulo (2011). 
Bacharel em Educação Física – Faculdades Integradas de Santo André (2009).