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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pilates para todos


Fonte: Google imagens
Diante das manifestações clínicas da Esclerose Múltipla, a prescrição de exercício físico é uma estratégia terapêutica eficiente para minimizar a perda da capacidade funcional.

O Pilates é um método de treinamento físico e mental que considera o corpo e a mente como uma unidade, que consiste em seis princípios básicos: concentração, precisão, controle, centralização, respiração e fluidez.

A base do Pilates está no fortalecimento do centro de força “Power House”, expressão que denomina a circunferência inferior do tronco, a estrutura que suporta e reforça o corpo, ajudando a melhorar a postura, facilitando a execução de movimentos equilibrados, melhorando o controle motor das extremidades.

Pesquisas recentes demonstraram que em sessões de 50 minutos, realizadas 2 ou 3 vezes por semana, é possível obter resultados satisfatórios, como: estabilidade e postura de pacientes cadeirantes; diminuição da dor; melhor equilíbrio na deambulação; aumento da força muscular das extremidades superiores e inferiores e também abdominal; mobilidade articular; além da maior confiança nas atividades da vida diária.

As aulas podem ser individuais ou em grupo, no solo ou em aparelhos, apenas com o peso corporal ou com pequenos implementos, como: bola, faixa elástica, foam roller, flex circle, entre outros.

O Pilates pode ser praticado por qualquer indivíduo e com algumas sessões é possível construir um novo corpo.

Mexa-se e supere seus limites!

REFERÊNCIAS

Freeman J; Fox E; Gear M; Hough A. Pilates based core stability training in ambulant individuals with multiple sclerosis: protocol for a multi-centre randomised controlled trial. BMC Neurol, v. 12, n. 19, p. 1-6, abr. 2012.

Guclu-Gunduz A; Citaker S; Irkec C; Nazliel B; Batur-Caglayan HZ. The effects of pilates on balance, mobility and strength in patients with multiple sclerosis. NeuroRehabilitation, v. 34, n. 2, p. 337-342, dec. 2014.

Marietta L. van der Linden; Catherine Bulley; Louise J. Geneen; Julie E. Hooper; Paula Cowan; Thomas H. Mercer. Pilates for people with multiple sclerosis who use a wheelchair: feasibility, efficacy and participant experiences. Disability and Rehabilitation, v. 36, n. 11, p. 932-939, dec. 2014.

  
Eliciane Leite 
Educadora física (CREF 076979-G/SP)



Professora Técnica de Esportes no SESI-SP, CAT Theobaldo de Nigris – Santo André.  
Especialista em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido, na Saúde, na Doença e no Envelhecimento – Universidade de São Paulo (2011).

Bacharel em Educação Física – Faculdades Integradas de Santo André (2009).


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Exercícios físicos e doenças neurodegenerativas


Fonte: http://hiperdiasaude.blogspot.com.br/2014/02/os-beneficios-da-pratica-de-atividade.html

A prática de exercícios físicos vem sendo difundida mundialmente desde a década de 1950 como um dos principais mecanismos para a obtenção da boa saúde. É de conhecimento geral e notório que a prática de atividades físicas regularmente exerce um papel protetor sobre os sistemas nervoso e neuromuscular, dentre outros. Então, a prevenção ou a minimização das enfermidades oriundas do ritmo desenfreado da vida moderna deveria passar pela realização de exercícios desde os primórdios da existência. A educação física, a atividade esportiva e toda orientação nesse sentido deveria ser mais valorizada nas escolas, fazendo parte do currículo escolar de forma obrigatória e possibilitando o ingresso nas universidades através de bolsa de estudos e ajuda de custo, tal como ocorre em países como os Estados Unidos. Infelizmente, no Brasil, estamos longe disso.

Um dos maiores vilões nas sociedades modernas, do consumo, do fast food, dos controles remotos, é o que a ciência conhece como sarcopenia. Trata-se de uma doença decorrente da idade, do envelhecer, que ocasiona a perda de força e de massa muscular, observa-se a diminuição do número e tamanho das fibras musculares. Nos indivíduos sedentários e idosos, ela é muito mais pronunciada do que naqueles de mesma idade que apresentam um bom histórico de treinamento físico ou que praticam atividades esportivas regularmente. É uma das grandes preocupações nas sociedades modernas, uma vez que o sedentarismo está presente em 30% da população mundial. O sedentarismo, os déficits nutricionais, o sobrepeso, e o uso excessivo de medicamentos abreviam a vida e qualidade de vida de nossa população idosa e abrem caminho para as infecções oportunistas e doenças relacionadas à idade. Então, o exercício físico pode atenuar tudo isso, sobretudo se aliado a outros hábitos saudáveis.

Há um paradoxo em se tratando particularmente de doenças neurodegenerativas, que é o fato de que, uma vez desenvolvidas, muitas dessas doenças requerem exercícios suaves, não extenuantes, valorizando-se os aspectos de conservação de energia, evitando-se a fadiga e a sobrecarga que em tese piorariam o quadro clínico geral. Mas, o exercício é sempre muito bem vindo! Nunca é contra indicado - ou quase nunca! O exercício bem feito, dirigido, coordenado e orientado por especialistas da área, sempre traz resultados surpreendentes e alentadores mesmo em se tratando de quadros neurológicos graves.  Se o indivíduo apresenta esclerose múltipla, por exemplo, deve-se ter um olhar específico sobre a fadiga, a fraqueza e as limitações articulares; se apresenta esclerose lateral amiotrófica, não apenas a fraqueza, a fadiga, mas também a atrofia muscular estão presentes e carecem de atenção particular; se apresenta síndrome pós-poliomielite, a regra é não fadigar, não exagerar nos exercícios e atentar para a intolerância ao frio e à dor; se a doença de base é miastenia grave, a fadiga oscila durante o dia, especialmente no período vespertino, e a prática de atividade física torna-se muito mais expressiva após a administração da medicação específica. Se a doença que se apresenta é uma Síndrome de Guillain Barré, todo cuidado é pouco, porque a conduta do fisioterapeuta, do educador físico, fonoaudiólogo ou qualquer outro profissional que acompanhe esse indivíduo muda significativamente de uma fase aguda para intermediária e crônica.

Assim sendo, quanto aos exercícios físicos, todos são unânimes em categorizá-los como benéficos, e o são de fato. Contudo, em se tratando de doenças neurodegenerativas, existem critérios muito específicos e particulares, revelando-se necessária uma avaliação particularizada.

Em suma, o diagnóstico médico deve estar bem claro para a equipe de reabilitação e a partir daí poder-se-á traçar um planejamento terapêutico direcionado e eficaz, favorecendo melhora significativa na condição clínica do indivíduo e devolvendo-o a sociedade, se possível, de forma plena. Esse é nosso objetivo.


Celiana Figueiredo
Fisioterapeuta respiratória

  • Fisioterapeuta formada pela UEPB 
  • Especialista (Fisiologia do Exercício e Cardiologia) 
  • Mestra e com Doutorado em andamento pela UNIFESP-EPM
  • Responsável pelo setor de Fisioterapia Respiratória do Ambulatório de Síndrome pós-poliomielite da UNIFESP-EPM
  • Fisioterapeuta Respiratória do Instituto Giorgio Nicolli e RNA (atualmente)


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Esclerose múltipla e treinamento resistido


Fonte: https://goo.gl/XgAFHB

As pessoas com Esclerose Múltipla (EM), por muito tempo, foram conduzidas a reduzir o nível de atividade física. O objetivo desta orientação era poupar energia dos pacientes, evitar o aumento da temperatura corporal, controlar a fadiga e diminuir a exacerbação da doença. O sedentarismo, além de um grande risco para patologias cardíacas, aumenta os distúrbios da EM, como: espasticidade, ataxia, fraqueza muscular, falta de equilíbrio e fadiga. Assim a prescrição de exercícios resistidos funciona como uma estratégia terapêutica eficiente e segura para minimizar a perda da capacidade funcional (PORTO; RASO, 2007; FURTADO; TAVARES, 2005).

Em pacientes com EM ocorre a diminuição da força muscular, que está ligada às alterações do Sistema Nervoso Central (SNC), por conta da desmielinização das fibras nervosas, e ao desuso, por consequência do baixo nível de atividade física que reduz a ativação das fibras musculares de todos os tipos e de suas ações enzimáticas.

O déficit da força muscular causa grande impacto na locomoção e execução das atividades da vida diária (AVD), comprometendo o estilo de vida independente, isto porque a perda ocorre de maneira mais acentuada nos músculos de membros inferiores (MMII) prejudicando a deambulação. (FURTADO; TAVARES, 2007).

A indicação de exercícios físicos não era recomendada, pois acreditava-se que esta prática ao elevar a temperatura corporal poderia aumentar a fadiga e potencializar os sintomas da doença. A partir da década de 80, pesquisas realizadas demonstraram que a prática de exercícios físicos era eficaz e segura para portadores de EM. (FURTADO; TAVARES, 2005).

Com relação ao Treinamento Resistido (TR) é possível citar alguns estudos que mostraram resultados importantes nos pacientes com EM.

Com o objetivo de verificar a melhora na ativação neural com um treinamento de força máxima para portadores de EM, Fimland e cols. (2010) realizaram um estudo randomizado com uma amostra de 14 pacientes portadores de EM e forneceu evidências de que o treinamento de força máxima é eficaz para aumentar a ativação neuromuscular dos MMII, aliviando alguns dos sintomas em pacientes com ligeira à moderada deficiência devido a EM.

Apesar da realização de um programa de TR de curta duração, Debolt e McCubin (2004) puderam notar o impacto dos exercícios na execução das atividades da vida diária, como entrar e sair do carro e sentar e levantar de uma cadeira.

A capacidade funcional de indivíduos com EM é um fator importante, assim Gutierrez e cols. (2005) realizaram um estudo cujo objetivo era avaliar a cinemática da marcha através de um programa de exercícios contra resistência. Esta pesquisa teve duração de oito semanas e tendo como resultado um aumento significativo na força de MMII, consequentemente, melhora na marcha. Dessa forma, concluiu-se que o treinamento contra resistência pode ser eficaz no tratamento de pessoas com EM. White e cols. (2004) corroboram quando perceberam adaptações positivas com o TR e melhora significativa na capacidade funcional dos indivíduos com EM.

A maioria dos pacientes com EM podem exercitar-se seguramente, mesmo sabendo que tal prática promove o aumento da temperatura corporal. Desta forma, sugere-se algumas estratégias para controlar este sintoma: salas climatizadas, realização de exercícios no início da manhã ou no final da tarde, manutenção da hidratação durante a atividade física. (FURTADO; TAVARES, 2006).

Há também a técnica do resfriamento pré-exercício, onde é feita a imersão corporal até a cintura em água fria por 30 minutos. Esta estratégia é utilizada para minimizar os efeitos colaterais associados ao calor e otimizar o conforto físico durante o exercício. (FURTADO; TAVARES, 2005). 
  
Dessa forma, entende-se que o TR pode ser uma ótima ferramenta para busca da manutenção ou desenvolvimento da força muscular, tendo como foco principal minimizar as perdas da capacidade física decorrentes, tanto da EM, como do envelhecimento. Portanto, o desenvolvimento da força muscular é de suma importância para um estilo de vida ativo e autônomo (FURTADO; TAVARES, 2007).

REFERÊNCIAS

DEBOLT, L. S.; MCCUBBIN, J. A. The effect of home-based resistance exercise on balance, power and mobility in adults with multiple sclerosis. International Journal of Sports Medicine, Stuttgart, BW: THIEME, v. 85, n. 2, p. 290-297, feb. 2004.

FIMLAND, M. S. et al. Enhanced neural drive after maximal strength training in multiple sclerosis patients. European Journal of Applied Physiology, Frankfurt, HS: SPRINGER, v. 110, n.2, p. 435-443, sep. 2010.

FURTADO, O. L. P. C.; TAVARES, M. C. G. C. F. Esclerose múltipla e exercício físico. Acta Fisiátrica, São Paulo: HC/FMUSP, v. 12, n. 3, p. 100-106, dez. 2005.

______. Orientação de exercícios físicos para pessoas com esclerose múltipla. Revista Digital, Buenos Aires, v. 11, n. 99, ago. 2006. Disponível em: <http://www.efdeportes.com/efd99/esclero.htm>. Acesso em: 9 out 2011.

______. Proposta de exercícios resistidos para pessoas com esclerose múltipla: um estudo de caso. Acta Fisiátrica, São Paulo: HC/FMUSP, v. 14, n. 2, p. 111-116, jun. 2007.

GUTIERREZ, G. M. et al. Resistance training improves gait kinematics in persons with multiple sclerosis. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation, Philadelphia, PA: ELSEVIER, v. 86, n. 9, p. 1824-1829, sep. 2005.

PORTO, R. M.; RASO, V. A importância da atividade física para portadores de esclerose múltipla obesos. Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento, São Paulo: IBPEFEX, v. 1, n. 1, p. 80-89, jan./ fev. 2007.

WHITE, L. J. et al. Resistance training improves strength and functional capacity in persons with multiple sclerosis. Multiple Sclerosis Journal Online, Teller Road, CA: SAGE PUBLICATIONS, v. 6, n. 10, p. 668-674, dec. 2004.

Eliciane Leite 
Educadora Física 
CREF 076979-G/SP


Professora Técnica de Esportes no SESI-SP, CAT Theobaldo de Nigris – Santo André.  
Especialista em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido, na Saúde, na Doença e no Envelhecimento – Universidade de São Paulo (2011). 
Bacharel em Educação Física – Faculdades Integradas de Santo André (2009).


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Vamos Pilatear?



Fonte: Acervo pessoal

Muitos de nós já sabem o que significa Pilates e para os que não conhecem, é simples, basta digitar a palavra no Google e infinitas referências irão aparecer. 

O que muitos talvez não saibam é: de onde vem essa febre mundial chamada Pilates? 

A técnica Pilates teve origem na própria história de vida do Joseph Hubertus Pilates, um alemão que teve interesse muito cedo por atividades físicas devido  ter sofrido com algumas doenças como: asma, raquitismo e febre reumática. Mas, foi num campo de concentração em Lancaster-1914, que a técnica começou a dar seus primeiros passos, quando Joseph foi considerado "inimigo estrangeiro" pelas autoridades britânicas, foi exilado e aproveitou para fazer suas primeiras experiências em corpos alheios ao seu. Utilizava as molas dos colchões para trabalhar resistência muscular (daí vem à origem das molas dos aparelhos de pilates). O que se seguiu foi o aparecimento de resultados incríveis: nenhum dos internos que fizeram parte do seu treinamento se contagiou com a epidemia de influenza que matou milhares de outros colegas internos naquela época. Mais tarde Joseph foi para Nova Iorque e aprimorou a técnica que hoje chamamos de Pilates, trabalhando a reabilitação e condicionamento físico dos bailarinos do New York City Ballet de maneira inovadora e eficaz. A partir daí ele desenvolveu os primeiros aparelhos e a fundamentação dessa técnica que hoje alcançam o mundo todo.

Mas, o que Pilates tem a ver com EM? No meu caso particular, o mEU Pilates tem sido a salvação para MINHA EM! O primeiro motivo consiste no fato do Pilates ser tão mutável e surpreendente quanto a doença! É possível adaptar cada um dos exercícios para cada pessoa! Me lembro bem que ao chegar em março na neurologista e ser encaminhada para fisioterapia/Pilates, me senti estranha e relutante. Por um lado, eu não queria aceitar que necessitava de fisioterapia e, por outro, não acreditava que seria capaz de fazer Pilates, saindo de um surto brabo de EM. Afinal, um ano antes, com a doença estável, eu já havia tentado praticar por 3 meses e apesar de adorar, achava aquilo tudo difícil demais. Vale destacar que no primeiro estúdio que fiz Pilates havia uma senhora com apenas uma das pernas que se exercitava tanto quanto qualquer um dos demais alunos.

Fonte: Acervo pessoal

O segundo motivo que merece destaque é a própria origem da atividade, pois se Joseph ao ter medo de ir parar em uma cadeira de rodas pôde criar esse método maravilhoso de controle corporal, ainda no século XX, o que nós com EM não podemos fazer,com toda a tecnologia e medicina a nosso favor? Joseph morreu com mais de 80 anos, tentando salvar parte da obra de sua vida sem nunca ter usado a tão temida cadeira.

O terceiro aspecto consiste no fato do Pilates trabalhar muito mais do que o corpo. O foco está na interface entre corpo e mente. A respiração, a postura, o desafio, o controle, a paciência e até a criatividade que a atividade exige fazem com que o equilíbrio seja possível entre corpo e mente.

O quarto aspecto central é que o Pilates nunca fica obsoleto e enjoativo. Basta escolher um professor criativo que saiba lidar com as suas condições específicas e que veja nelas, muito além de obstáculos, terrenos férteis para dar asas à imaginação.

O quinto ponto e o que para mim é esplêndido, é que você pode praticar muitos dos exercícios do Pilates na sua cama! Logicamente, para iniciar qualquer atividade física, orientação profissional é necessária. Mas, aos poucos, você pode praticar diariamente em casa! Sem auxílio de aparelhos, e de graça! Podendo assim, dar continuidade a tudo que aprende no estúdio.

Fonte: Acervo pessoal

Por fim, destaco a rotina exigida pelo Pilates e por muitos outros exercícios, o que para nós com EM, é essencial! Hoje, após quase 7 meses praticando, indico a cada um de vocês leitores, especialmente, os esclerosados, que tentem "Pilatear". Destaco a importância de procurar um profissional capacitado e sério (pois exercício não é brincadeira) e um estúdio em que se sintam respeitados, estimulados e acolhidos.


Liane Moreira
Bióloga


terça-feira, 19 de abril de 2016

Exercício físico: exercício para o cérebro


Fonte: Google imagens

Nicholas Spitzer é um professor de neurociência da Universidade da Califórnia. Segundo o professor, a prática de solucionar jogos de raciocínio não melhora a capacidade cognitiva e música clássica  não desenvolve as suas funções cerebrais.  “Essas teorias foram analisadas em detalhe e elas não se sustentam. É decepcionante de certo modo, mas o que descobrimos é que exercício (físico) é a chave para as funções cerebrais”, afirmou o professor.

De qualquer forma, os jogos de raciocínio e ouvir uma boa música podem trazer sensações de prazer muito interessantes.

O que se discute hoje são as condições em que os exercícios são feitos para que as vantagens da atividade física sobre o cérebro aconteçam.

O ambiente parece ser uma condição importante. De preferência devem ser feitos sob exposição da luz solar. A explicação disso é fruto do processo de evolução. Pesquisa constatou que nosso cérebro muda suas atividades de acordo com o ambiente. Isso por uma questão de sobrevivência. O cérebro tende a diminuir suas atividades em ambientes fechados, após algum período sem exposição à luz solar relevante, condições semelhantes às impostas aos animais (e aos seres humanos) durante o inverno.

Segundo o professor da Universidade de São Paulo à frente do Laboratório de Neurociência e Comportamento, Gilberto Fernando Xavier, o sistema nervoso leva cerca de 12 semanas para produzir alterações detectáveis de melhor desempenho, e isso apenas após uma prática de exercícios regulares (5 ou 7 dias na semana). Por “melhor desempenho” entenda redução dos níveis de stress e ansiedade, melhorando assim capacidade de memória e raciocínio rápido. Isso é o efeito que Xavier chama de “estabilização afetiva”. 

Fator oxigenação

Assim como todas as outras partes do corpo, o tecido cerebral também se deteriora ao não ser usado e com o passar dos anos. A partir dos 20 anos, perde-se anualmente 1% do volume do hipocampo, a porção do cérebro relacionada à memória e certos tipos de aprendizado. É exatamente na proteção dessa região que os exercícios funcionam de forma mais intensa. A prática de atividade física estimula a produção do chamado Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro, ou BNDF, da sigla em inglês – Brain Derived Neurotrhophic Factor. “Essa proteína é responsável por estimular a produção de novas células nervosas, os neurônios, principalmente no hipocampo”, explica o neurocirurgião Fernando Gomes Pinto, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Portanto, o papel primordial dos exercícios é reverter a destruição dos neurônios, estimulando o crescimento de exemplares novinhos e a conexão deles com seus vizinhos. Atividades físicas melhoram a oxigenação das células cerebrais porque incentivam a circulação sanguínea. Pessoas fisicamente ativas têm menor risco de Alzheimer e doença de Parkinson, diz Jomar de Souza, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE). Além disso, há a liberação de endorfinas, que provocam a sensação de bem-estarEssas substâncias naturais diminuem a dor e melhoram o humor. “E não se pode desconsiderar o fato de que os exercícios melhoram o estado psicológico, porque elevam a autoestima, já que a pessoa fica com uma silhueta mais adequada e executa tarefas físicas com maior eficiência”, diz o médico Gomes Pinto.

Três ótimos motivos para não ser sedentário:

- Ao atrasar o avanço das doenças degenerativas,  os exercícios permitem preservar por mais tempo a memória e a noção de tempo e espaço. O sono mais equilibrado, consequência do exercício físico, também favorece as capacidades cognitivas.

- A prática de atividades físicas tem um lado preventivo, pois possibilita a formação de novas conexões no cérebro. Isso é muito importante diante de doenças como Alzheimer, cuja principal característica é a perda progressiva de conexões neurais.


- Trabalhar o corpo favorece a produção de hormônios que dão sensação de bem-estar, como a endorfina. Por isso, quem faz exercícios regularmente fica mais alegre e estável, menos sujeito a ansiedade e depressão.


Egon Félix Hadermann
Fisioterapeuta
Mestre em psicologia da saúde


terça-feira, 22 de março de 2016

Esclerose Múltipla e atividade física


Fonte: Google imagens


A Esclerose Múltipla (EM) é uma doença neurológica crônica, caracterizada por áreas de desmielinização e lesões axonais associadas com atividade inflamatória. Tais lesões são disseminadas em espaço e tempo e responsáveis pela falha ou bloqueio na condução dos impulsos nervosos.

Na maioria dos casos, a evolução da EM ocorre com a alternância de períodos de surto e remissão. O surto ou exacerbação da EM é caracterizado pelo aparecimento de sinais ou sintomas de disfunção neurológica, enquanto que a remissão é o período pós-surto com retorno, total ou parcial, dos sintomas e sinais clínicos a valores basais.

Os benefícios da prática regular de exercícios físicos para pessoas saudáveis e na prevenção e processo de tratamento de várias doenças têm sido comprovados por inúmeras pesquisas. Observamos atualmente a utilização de forma cada vez mais criteriosa do exercício aeróbio, de fortalecimento muscular ou de flexibilidade, na busca de melhor qualidade de vida para todas as pessoas. No caso da EM, só recentemente passou-se a considerar a implementação de programas com exercícios físicos.

A diminuição da força muscular é uma situação comum em pessoas com esclerose múltipla. Este fato impacta na locomoção e na execução das atividades de vida diárias, interferindo na manutenção de um estilo de vida independente. As causas dessa perda de força estão ligadas tanto a alterações no sistema nervoso central, como também, a alterações musculares decorrentes do desuso.

Historicamente, a indicação de exercícios físicos foi tida como inadequada para pessoas com EM. Acreditava-se que tal prática, ao elevar a temperatura corporal, aumentasse a fadiga e pudesse exacerbar os sintomas. Entretanto, esse quadro começou a mudar a partir de pesquisas realizadas na década de 1980.
As pesquisas, que continuam até hoje, demonstram ganhos relevantes na força muscular de membros inferiores, diminuição na gordura corporal, níveis de triglicérides, mudança positiva na qualidade de vida com redução da depressão, raiva, fadiga, melhora na deambulação, mobilidade e cuidados corporais. Os estudos apontam como possibilidade de exercícios a atividade aeróbica (como caminhada) realizada na água, o fortalecimento resistido para os músculos dos membros inferiores. Estes exercícios podem ser realizados com o auxílio de máquinas, caneleiras, “somente” contra a gravidade, pode-se ainda utilizar borrachas específicas para exercícios (Thera Band).

Podemos nos questionar o porquê destas atividades. Os estudos citam relatos de melhora dos participantes na execução de atividades rotineiras como entrar e sair do carro e sentar e levantar de uma cadeira. A população que não vivencia a EM pode entender que não é necessário um treinamento de força para o desenvolvimento de atividades “tão banais”, porém para o portador da doença, muitas vezes, desenvolver estes ganhos pode aproximá-lo de uma independência.

Em relação ao ganho de força, a única ressalva é que os estudos que demonstraram o ganho efetivo de força foram realizados com pessoas com incapacidade moderada.

Contrariamente ao conceito antigo de que pessoas com EM deveriam evitar a prática de esforços físicos como forma de reduzir ou conter a fadiga, alguns estudos foram conduzidos com exercícios físicos para essa população e, satisfatoriamente, demonstraram a redução da fadiga geral.

Fadiga merece ter seu conceito ampliado. A partir de uma abordagem fenomenológica, o significado da fadiga para mulheres com EM foi descrito como "viver com um corpo como uma barreira", "com o sentimento de estar ausente" e "experimentar o mundo ao redor como inalcançável”. Ainda sob a mesma abordagem, a fadiga é sentida e expressada em termos de perda de energia, aflições emocionais, dependência e restrições da vida em geral. De fato, a fadiga tem um efeito tremendo nas atividades de vida diária de pessoas com EM, interferindo no trabalho, vida familiar e atividades sociais. Assim, associa-se significativamente a baixos valores de qualidade de vida, independente do curso clínico ou grau de incapacidade da doença.

Além do ganho de força e da melhora da capacidade aeróbica, os exercícios físicos apontam para uma melhora na sensação da fadiga. Neste caso a fadiga pode estar relacionada à falta de treino das pessoas. A Ioga também tem sido utilizada como ferramenta para a melhora dos níveis de fadiga.

Buscando reduzir o impacto da fadiga no cotidiano de pessoas com EM pode-se seguir uma série de princípios básicos para conservação de energia:

- Trabalhar em ritmo moderado
- Agendar períodos de descanso
- Organizar tarefas para evitar a subida desnecessária de escada
- Manter boa postura durante atividades
- Organizar a área de trabalho
- Evitar levantar ou carregar objetos pesados
- Delegar tarefas que sejam muito estressantes ou fatigantes
- Garantir temperatura apropriada no local de trabalho

Não se deve compreender estas orientações como a adoção de um estilo de vida sedentário, uma vez que a prática de atividades físicas e de lazer de baixa a moderada intensidade reduz o risco de doenças hipocinéticas, assim como doença cardíaca, e a obesidade. Assim, para pessoas com EM é importante respeitar os aspectos individuais em relação à fadiga, mantendo-se tão ativos quanto possível.


Egon Félix Hadermann