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quinta-feira, 30 de março de 2017

Angústias traduzidas...


Bete Tezine, Silêncio. Acumulação, 2012-2014.

Pior é que eu berrei. Berrei com o pior tipo de desespero do mundo. 
Meu silêncio, meu conformismo, minha aceitação, minha quase maturidade. 
Eu tenho a impressão que a hora que eu chorar, vai ser das coisas mais tristes do mundo.
(Tati Bernardi)
No próximo dia 02 de abril, minha parceria com o Rebif completará 5 anos de existência.
Fazendo uma conta aproximada, daquela primeira picada até hoje foram cerca de 800 injeções aplicadas em diversas partes do corpo.
Coxas, nádegas, barriga, costas e braços receberam cada um por volta de 160 agulhadas introdutórias do "precioso líquido" em meu organismo.
Quando me refiro à preciosidade do medicamento, estou querendo ressaltar o quanto ele é valioso para quem dele necessita, como no meu caso, mas também o quanto ele é caro, financeiramente falando, a ponto de só me ser possível, assim como para muitos outros, fazer uso dele porque é fornecido pelo SUS, pois caso não fosse ele estaria muito aquém do meu orçamento.
Costuma-se dizer que a Esclerose Múltipla é uma doença cara, uma doença que não deveria acometer pessoas desprovidas de recursos financeiros, com o que sou obrigada a concordar, uma vez que embora a medicação para controle seja recebida, em tese, gratuitamente do Poder Público, a patologia  necessita de cuidados multidisciplinares e outros remédios altamente onerantes.
Doença rara, complexa e cara...
Mas deixemos a parte financeira de lado por ora, porque hoje quero abordar a preciosidade por outro ângulo: o protetivo que o interferon tem exercido sobre a evolução da EM em mim. 
Eu iniciei seu uso exatamente 2 meses após ter recebido o diagnóstico e de lá pra cá tive alguns surtos que não deixaram sequelas graves. Na verdade, apesar de ter perdido um pouco de força e sensibilidade, eu caminho sem precisar, quase sempre, de apoio e tenho conseguido fazer quase tudo o que preciso na maioria dos dias, o que quer dizer que o meu "ouro líquido", como eu apelidei o interferon, está cumprindo seu papel desacelerador da progressão da EM.
Eu não consegui descartar nenhuma das seringas vazias. Tenho todas guardadas. Algumas se transformaram em arte bem no começo do tratamento e as demais terão o mesmo destino. Já elaborei mentalmente o projeto dos trabalhos que pretendo realizar com elas, o que tem me faltado é tempo para elaborá-los.
Me lembro bem das reações que meus trabalhos com as seringas provocaram nos observadores quando os expus nas redes sociais. Algumas foram bem antagônicas, denotando repulsa, suscitando críticas negativas. Outras foram de profunda identificação com o conteúdo de cada uma delas.
Transformei em arte sentimentos que me fizeram sofrer. Fiz arte com o que eu não consegui lidar de outro modo. A arte deu novo significado ao medicamento que me dava a sensação de adoecer mais a cada dose. 
A primeira seringa, aquela que mantive em minhas mãos por um tempo, que me pareceu infindável, sem ganhar coragem para apertar o êmbolo, recebeu o "sangue" que latejava em minhas artérias e transformou-se no elemento chave da obra Solidão.
Bete Tezine, Solidão. Arte objeto, 2012.
As seringas das aplicações seguintes ganharam o dourado do metal que deu nome à obra. Ouro líquido demonstra toda a preciosidade do interferon em minha vida.

Bete Tezine, Ouro líquido. Arte objeto, 2012.

Bete Tezine, Ouro líquido (detalhe). Arte objeto, 2012.

Mais aplicações, mais seringas vazias. Uma caixa branca, um pedido de silêncio... Silêncio é o título da obra que aparece na abertura do post e que traduz o meu direito de escolha ou, talvez, de não escolha... 

Para finalizar, quero deixar aqui uma frase de Nietzsche para reflexão: "temos a arte para não morrer da verdade".

Bete Tezine


"A arte, em todas as suas formas de expressão, tem o poder de mudar os rumos de uma história que desde o começo estava fadada ao fracasso..." 
 (Bete Tezine)


Nascida em Santo André, SP, 49 anos, advogada, artista plástica, professora de Artes Plásticas, mãe de 2 filhos (1 adulto e 1 adolescente), diagnosticada com Esclerose Múltipla em fevereiro de 2012 e atual presidente da ABCEM



terça-feira, 5 de julho de 2016

Vamos fazer arte?





Temos a arte para não morrer da verdade,

(Nietzsche)

A arte é a expressão mais antiga do ser humano. Pela arte se conta a história da humanidade, pois, quando o homem primitivo estampou sua mão em negativo nas cavernas e representou cenas do seu cotidiano, ele nada mais fez que deixar para as gerações futuras a sua história registrada. 

A arte evolui junto com o homem, fazendo escola, enveredando por linguagens e técnicas tão diversificadas quanto as emoções humanas. 

A arte é o maior retrato dos sentimentos daquele que a produz. O artista se personifica em suas obras. 

E assim, justamente por ser tão expressiva, denotando o interior daqueles que se propõem a sua produção, a arte passou a ser, também, instrumento de cura. Surgiu a arteterapia, ou terapia pela arte, ou a arte que cura.

Diante disso, podemos definir arteterapia como sendo a arte utilizada em um processo terapêutico. 

E o que é arte?

A definição do que seja arte varia de acordo com o tempo e as diversas culturas humanas. Muitos autores a conceituaram no decorrer da história, dando-lhe diversos significados. Para Platão a arte era o esplendor do verdadeiro. Aristóteles a definiu como sendo a ordem e a harmonia das partes. Porém, é em Nietzsche que encontramos a definição que melhor se molda ao recurso da arte como cura, "temos a arte para não morrer da verdade".

Será que a verdade mata? Será que enxergar a realidade sem o filtro do véu da "ignorância" pode nos levar à morte? Será que podemos nos entregar à falência de nós mesmos quando temos descortinada a mais absoluta e pura verdade dos fatos?

Depende. Depende muito da bagagem emocional que fomos acumulando durante a vida. Podemos nos agigantar diante daquela verdade que nos desembaça os olhos por meio de um choque de alta voltagem, ou, podemos nos entregar à introspecção de emoções que não afloram, ficando guardadas lá dentro, em um canto escuro, crescendo feito o bolor que toma conta dos objetos umidificados pelo desuso. Porém, esta escolha não é uma tarefa simples e que depende, tão somente, do nosso querer. Muitas vezes, nem nós sabemos o tamanho da ferida que está sendo irrigada, dia a dia, com o sangue de dores não personificadas, da falta de aceitação da realidade que se abriu, com um luto que não cessa... É nessa hora que precisamos de ajuda. Ajuda para podermos engolir o que está entalado na garganta, que nem desce para ser digerido, nem é "vomitado" para aliviar o desconforto que está prestes a nos matar engasgados. 

Muitas vezes, nossos gestos dizem muito mais que nossas palavras, uma vez que temos o hábito, para não dizer defeito, de subestimar nossas emoções, sobremaneira as que nos tornam vulneráveis diante de fatos que, ao nosso olhar contaminado pela falta de aceitação, deveria ser algo bem mais simples de lidar, pois afinal, a sociedade nos cobra uma força muito além da capacidade humana de lidar com perdas e enfermidades.

É ai que a arte pode nos ajudar a expor os grãos de areia que estão dilacerando a ferida aberta em nosso interior. A arte nos ajuda a extenuar emoções sufocadas, desconfortos com as situações das quais não temos controle, angústias diversificadas, dores do corpo e da alma. O fazer artístico já nasce impregnado pelos nossos traços. É como um autorretrato da nossa personalidade, um rx do que se passa em nosso íntimo.

E todos, do seu jeito, podem, conseguem, têm habilidade para  fazer arte. Nem todos se tornarão um Monet, um Vik Muniz, um Sebastião Salgado, um Paulo Autran, uma Fernanda Montenegro... mas, cada um de nós, temos intrínsecos em nossa personalidade o fazer artístico, temos a capacidade de expor nossas interioridades em obras que nos salvam de morrer da verdade. A verdade insana de achar que somos os únicos a vivenciar este ou aquele problema. Não a verdade que salva, mas a verdade que sufoca por não termos a habilidade (não ainda, não sozinhos) de fazer das nossas dores criações que curam. 

A terapia nos ajuda a adquirir essa habilidade e, a arte, nos ajuda a diminuir o tamanho do abismo em que estamos imersos. E, a arterapia, é o instrumento para que isso aconteça.

Vamos fazer arte?



Bete Tezine