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quinta-feira, 27 de abril de 2017

Falar, calar ou omitir?


Fonte: http://www.remerterapias.com.br/175/

Acredito que muitos, a partir de uma mudança brusca em suas vidas, principalmente quando descobre uma doença grave, inicia um processo complexo, tanto de aceitação  como de tratamento, que vai além de um diagnóstico.

Falar ou não a respeito?  omitir essa informação? Qual o momento para falar? Como? Mesmo no âmbito familiar, na qual o apoio é essencial, para muitos não é uma tarefa simples e alguns preferem omitir inicialmente.

Essas são algumas das inúmeras perguntas que surgem após a mudança efetiva na forma de viver  que afetam o "eu" no sentido subjetivo e coletivo,  tanto nas relações  familiares,  como nas amorosas, de trabalho e interpessoais.

São diversas interpretações a respeito, alguns falam como um meio de superar, aceitar e conviver com essas mudanças que em cada um evolui de um jeito diferente,  outros dizem que seguem adaptados, mas o complicado é a aceitação da família e da sociedade.

Quem ouve, muitas vezes olha sob uma perspectiva de pena, compaixão, vitimização, dúvida, desconfiança, confusão por desconhecer, indiferença e alguns conseguem simplesmente encorajar com algum gesto, pois todos possuem questões para enfrentar no decorrer de suas vidas.

A realidade do antes e o depois da EM fica como um marco/divisor que pode ser interiorizada e refletida de acordo com o seu estado emocional . Em alguns ou muitos momentos falar de si parece uma urgência como um meio encontrado para desabafar, pois a manifestação, mesmo que silenciosa dos sintomas  invisíveis aos olhos, serve para nos lembrar que o tempo urge e não temos o controle, apenas podemos utilizar de todo o tratamento disponível para impedir o progresso da doença. Para todos essa transformação são bruscas e dramáticas em vários fatores: familiar, escolar, trabalho e financeiramente.

Na maioria dos casos, o estado de quem convive com a esclerose ou qualquer outro tipo de doença complexa, a simples atitude de citar pode ser normal, um alívio ou uma tortura que nem sempre fica evidente para quem ouve.

É verdade que ficamos fragilizados, ansiosos, impacientes, confusos, incompreendidos, contudo inexiste certo ou errado. E fica evidente que é o seu estado interior que vai determinar a diferença como você acaba sentindo-se ao expor ou não, independente das reações que possam acontecer.


Jennifer Araujo 



Formada em produção editorial, 31 anos, divorciada, apaixonada por música, viagens e fotografia.





quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Nossa família também precisa aceitar...



Fonte: Google imagens

Devemos aceitar o que é impossível deixar de acontecer.

(Shakespeare)


Acredito que viver com qualquer doença crônica e incurável traga mutações imensuráveis para a vida de qualquer pessoa. 

Aceitar e conviver com uma enfermidade que limita,  remodela e, muitas vezes, incapacita para uma série de atividades tão corriqueiras anteriormente não é uma tarefa fácil, pelo contrário, é mesmo árdua e necessitamos de muita força de vontade, de muito equilíbrio emocional e espiritual para aceitar essa nova condição de vida e nos adaptar a ela.

Por outro lado, se a nossa própria convivência com a doença  já é uma missão muito pesada, o que dizer então da convivência dos que nos rodeiam com ela? Realmente não é nada fácil,  uma vez que aceitação não é apenas primordial a nós, pacientes,  mas necessário se faz que ela aconteça na vida de todos aqueles que convivam conosco. E, isso, na minha concepção, é o mais difícil de todo o processo.

Conviver com o paciente, aceitar sua nova condição, compreendê-lo e apoiá-lo incondicionalmente não é algo que acontece com a frequência que deveria, pois, muitas vezes, o que ocorre é  um constante estado de negação por parte dos  familiares. 
A negação, portanto, não é exclusividade do paciente.

Eles não se informam acerca da doença. Eles não a abordam. Eles tentam, a todo custo, ignorar a sua presença em nossas vidas, o que só nos faz sofrer ainda mais. Nos faz sentir menosprezados em nossa dor. Nos faz sentir menos amados.

Mas embora isso nos fragilize muito, essa é uma reação normal e esperada, pois ao negarem a enfermidade, nossos entes queridos acreditam que ela deixará de existir e, não falando abertamente sobre ela conosco, acreditam, também, que nos pouparão de mais dores e angústias. Porém, negar indefinidamente não é o que se espera, uma vez que a aceitação por parte daqueles que nos rodeiam é o que faz com que consigamos forças para prosseguir dentro da maior normalidade possível.

Sendo assim,  é imperiosa a necessidade de que a família busque informações, que procure entender o que se passa conosco, que tente se colocar em nosso lugar com a finalidade de ver a doença sob o nosso ângulo de visão. Desconversar, fingir que não está vendo ou tentar minimizar a importância que a patologia tem em nossas vidas não vai fazer com que ela desapareça, mas apenas fará com que doa mais em nós e nos dê a impressão de que estamos sendo negligenciados.

Aceitar e se adaptar não é fácil para ninguém, mas quem disse que é fácil se submeter aos desígnios da vida? Quem disse que é fácil conviver com tudo aquilo que nos tira da nossa zona de conforto? 

Realmente nada disso é simples, mas o caminho para superação é a informação, é a interação com os sintomas, com as características, tratamentos e conflitos emocionais que se instalam depois do diagnóstico, pois, só assim, nos sentiremos respeitados e compreendidos em toda dimensão do que se descobrir acometido por uma doença incurável provoca em nós.


Bete Tezine



"A arte, em todas as suas formas de expressão, tem o poder de mudar os rumos de uma história que desde o começo estava fadada ao fracasso..." 
 (Bete Tezine)

 Nascida em Santo André, SP, 48 anos, advogada, artista plástica, professora universitária de Artes Plásticas, mãe de 2 filhos (1 adulto e 1 adolescente), diagnosticada com Esclerose Múltipla em fevereiro de 2012 e atual presidente da ABCEM




terça-feira, 18 de outubro de 2016

Intolerância


Fonte: https://goo.gl/images/PIqBzn

Numa época em que  a tolerância anda em baixa, não apenas em relação às pessoas com Esclerose Múltipla, mas à tudo que não funciona como quero, necessito ou prefiro, vamos falar um.pouco sobre a intolerância.

A intolerância nada mais é do que uma reação de criticar ou reagir de forma até agressiva a uma frustração minha.

E como andamos frustrados!

Estamos frustrado com o governo, com o país, com a falta de dinheiro, com as doenças, com a falta de amor, enfim porque as coisas não são como quero!

Quantas amizades não são abaladas por uma discussão à respeito da Politica recentemente?

Quantos pacientes de Esclerose Múltipla  não se sentem sós pela intolerância na família, no trabalho, com.amigos, em relação às limitações que os sintomas da doença trazem?

Pois bem, a única maneira de lidar com a intolerância é o diálogo aberto e franco. Se colocar genuinamente no lugar do outro, do diferente, de quem me frustra .Só assim, posso imaginar como.ele sente e vê as situações. Só assim posso argumentar meu ponto de vista com respeito também ao dele. Só assim pode haver concordância ou, pelo menos, respeito. Só assim,  a frustração de não ser visto ou entendido pode diminuir.

Quando seu familiar tentar ignorar a fadiga, a depressão, as dores, o andar frágil, enfim a sua realidade com a EM, peça para que ele, por um minuto  se coloque no seu lugar. Pergunte para essa pessoa como ela se sentiria se quisesse ir a algum lugar, mas o cansaço, a dor de cabeça 
forte ou uma dor muscular intensa aparecesse e não melhorasse com medicação alguma? Conte pra ela o que é ter EM e tente  entender que quando você ainda não tinha esse diagnóstico talvez também achasse "frescura" ter depressão, talvez achasse "preguiça" alguém.não querer limpar a casa ou " birra" alguém recusar a comparecer em algum evento importante para você!

Vamos pensar nisso?

Abraços!


Luiza Donegá
Psicóloga


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ética nas relações familiares



Fonte: Google imagens


Esta semana iniciarei algumas reflexões sobre a ética nos diversos segmentos sociais em que estamos inseridos e,  hoje, vou abordar a ética dentro das relações familiares.

Os dicionários definem a palavra ética como sendo o “conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade”. Então, vejamos, mediante deste conceito será que podemos afirmar que ser ou não ético depende da forma como nos comportamos diante dos preceitos estabelecidos por este ou aquele grupo no qual estamos inseridos?

Se respondermos afirmativamente a esse questionamento, nossa ética variará de acordo com os limites impostos por cada segmento da vida, como escola, família, emprego, amigos etc. Mas, será que é assim que funciona?

Para analisarmos essa afirmação, torna-se fundamental observar que para a vida em sociedade ser possível, é essencial que existam limites, pois, do contrário, cada um agirá de acordo com seus próprios critérios e valores que nem sempre são os mais adequados. Pensem comigo: mesmo existindo preceitos que regulam as relações humanas, ocorrem tantos desvios de finalidade, de caráter, desrespeito ao próximo e verdadeiras barbáries nos mais diversos segmentos sociais, como seria, então, na ausência total de regras?

Com certeza, estaríamos imersos no caos, um caos maior do que estamos, um caos de proporções inimagináveis, uma vez que, nem sempre, o que é o melhor para nós é o melhor para o outro e são os limites que estabelecem um ponto, ao menos teoricamente, de equilíbrio entre querer e poder e é por isso que regras de condutas são efetivamente necessárias para que o caos total não se estabeleça.

Agora, vamos voltar para o tema central deste diálogo e analisar como a ética atua no centro das relações familiares, nas quais, por essência, a liberdade de cada integrante é maior que nos demais grupos dos quais ele participa. Normalmente, com aqueles com os quais convivemos mais amiúde, desenvolvemos formas de agir que, muitas vezes, não replicamos em outros segmentos. Algumas vezes nos comportamos de forma nada ética dentro da nossa própria família.

E por que isso acontece?

Em grande parte das vezes, somos guiados por exemplos, seguindo uma “tradição” familiar que não cultiva o agradecimento, o respeito mútuo, o “por favor” e outros gestos de cordialidade que fora de casa nos forçamos a usar. Digo forçamos porque, quando esses valores já estão arraigados em nós desde a mais tenra idade, eles são naturais, independentemente de qual círculo estejamos imersos no momento.

Acreditar que os pais têm a obrigação de fazer tudo e a todo instante pelos filhos; achar que o cônjuge não necessita de palavras de incentivo, mas apenas de cobranças; nunca se dirigir a um filho para elogiar seus acertos, mas tão somente para enfatizar seus erros; pedir emprestado e não devolver, se apossando do objeto do empréstimo como se o outro tivesse obrigação de “doá-lo” a nós; entre tantos comportamentos dessa extirpe, faz com que a ética saia pela porta que ficou aberta pela falta de respeito ao outro.

Eu trago incutida em mim uma definição própria do que seja ser alguém que traz em si comportamentos pautados pela ética, pois, na minha visão, somos éticos quando não fazemos ao outro o que não queremos a nós próprios. Talvez seja uma conceituação simplista diante de discussões filosóficas e sociológicas, mas é assim que tento me guiar pela vida, embora ainda tenha muitos degraus a galgar nesta escalada de trazer a ética de forma plena para dentro das minhas relações pessoais e sociais.

Mas, quem não tem?

Para refletir!

Beijos!


Bete Tezine
Advogada
Professora de artes plásticas